noite na taverna
alvares de azevedo


PARTE II

NOITE NA TAVERNA

MACRIO

Onde me levas?

SATAN

A uma orgia. Vais ler uma pgina da vida, cheia de sangue e de vinho-que
importa?

MACRIO

Eu vejo-os.  uma sala fumacenta. A roda da mesa esto sentados cinco homens
brios. Os mais revolvem-se no cho. Dormem ali mulheres desgrenhadas, umas lvidas,
outras vermelhas Que noite!


NOITE NA TAVERNA

How now, Horatio? you tremble, and look pale. Is not this something more than
fantasy? What think you on's?

Hamlet. Ato I

JOB STERN

UMA NOITE DO SCULO


Bebamos! nem um canto de saudade! Morrem na embriaguez da vida as cores!
Que importam sonhos, ilusdes desfeitas? Fenecem como as flores!

Jos Bonifcio

- Sicio! moos!! acabai com essas cantilenas horr!veis! NFo vedes que as
mulheres dormem brias, macilentas como defuntos? NFo sentis que o sono da embriaguez
pesa negro naquelas plpebras onde a beleza sigilou os olhares da vol#pia??

-Cala-te, Johann! enquanto as mulheres dormem e Arnold-o loiro-cambaleia e

adormece murmurando as candes de orgia de Tieck, que musica mais bela que o alarido da
saturnal? Quando as nuvens correm negras no cu como um bando de corvos errantes, e a
lua desmaia como a luz de uma lmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que
melhor noite que a passada ao reflexo das tachas?

-s um louco, Bertram! nFo e a lua que l vai macilenta: e o relmpago que passe
e ri de escrnio as agonies do povo que morre, aos soluos que seguem as mortalhas do
c"lera!

-O c"lera! e que importa? NFo h por ora vida bastante nas veias do homem? nFo
borbulha a febre ainda as ondas do vinho? nFo reluz em todo o seu fogo a lmpada da vida
na lanterna do crnio?

-Vinho! vinho! NFo  que as taas estFo vazias bebemos o vcuo, como um
sonmbulo?

-E o Fichtismo na embriguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da
embriaguez!

-Oh! vazio meu copo esta vazio! Ol taverneira, nFo  que as garrafas estFo
esgotadas? NFo sabes, desgraada, que os lbios da garrafa sFo como os da mulher: s"
valem beijos enquanto o fogo do vinho ou o fogo do amor os borrifa de lava?

-O vinho acabou-se nos copos, Bertram, mas o fumo ondula ainda nos
cachimbos! Ap"s os vapores do vinho os vapores da fumaa! Senhores, em nome de sodas
as nossas reminiscias, de todos os nossos sonhos que mentiram, de sodas as nossas
esperanas que desbotaram, uma ultima sa#de! A taverneira ai nos trouxe mais vinho: uma
sa#de! O fumo e a imagem do idealismo, e o transunto de tudo quanto ha mais vaporoso
naquele espiritualismo que nos fala da imortalidade da alma! e pois, ao fumo das Antilhas,
a imortalidade da alma!

-Bravo! bravo!

Um urrah tr!plice respondeu ao moco meio brio.

Um conviva se ergueu entre a vozeria: contrastavam-lhe com as faces de moco as
rugas da fronte e a rouxidFo dos lbios convulsos. Por entre os cabelos prateava-se-lhe o
reflexo das luzes do festim. Falou:

-Calai-vos, malditos! a imortalidade da alma? pobres doidos! e porque a alma e

bela, porque nFo concebeis que esse ideal posse tornar-se em loco e podridFo, como as
faces belas da virgem morta, nFo podeis crer que ele morra? Doidos! nunca velada levastes
porventura uma noite a cabeceira de um cadver? E entFo nFo duvidastes que ele nFo era
morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas plpebras iam abrires,
que era apenas o "pio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! e por
que tambm nFo sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! nFo mil vezes! a
alma nFo e, como a lua, sempre moca, nua e bela em sue virgindade eterna! a vida nFo e
mais que a reuniFo ao acaso das molculas atra!das: o que era um corpo de mulher vai
porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo
do verme vai alvejar-se no clice da flor ou na fronte da
criana mais loira e bela. Como Schiller o disse, o tomo da intelicia de PlatFo
foi talvez pare o coraFo de um ser impuro. Pr isso eu vo-lo direi: se entendeis a
imortalidade pela metempsicose, bem! talvez eu creia um pouco:-pelo Platonismo, nFo!

-Solfieri! es um insensato! o materialismo e rido como o deserto, e escuro como
um t#mulo! A nos frontes queimadas pelo normao do sol da vida a nos sobre cuja cabea a
velhice regelou os cabelos, essas crianas frias! A n"s os sonhos do espiritualismo!

-Archibald! deveras, que e um sonho tudo isso! No outro tempo o sonho da
minha cabeceira era o espirito puro ajoelhado no seu manto arteo, num oceano de
aromas e luzes! Ilusdes! a realidade e a febre do libertino, a taa na mFo, a lasc!via nos
lbios e a mulher seminua, tremula e palpitante sobre os joelhos.

-Blasia-e nFo c em mais nada: teu ceticismo derribou sodas as estatuas
do teu templo, mesmo a de Deus?

-Deus! crer em Deus! sim como o grito intimo o revela nas horas frias do
medo-nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roar #mida por nos! Na
jangada do naufrago, no cadafalso, no deserto -sempre banhado do suor frio-do terror e
que vem a crena em Deus! -Crer nele como a utopia do bem absoluto, o sol da luz e do
amor, muito bem! Mas se entendeis por ele os !dolos que os homens ergueram banhados de

sangue, e o fanatismo beija em sua inanimaFo de mrmore de h cinco mil anos! nFo credo
nele!

-E os livros santos?

-Misria! quando me vierdes falar em poesia eu vos direi: ai ha folhas inspiradas
pela natureza ardente daquela terra como nem Homero as sonhou-como a humanidade
inteira ajoelhada sobre os t#mulos do passado nunca mais lembrara! Mas quando me
falarem em verdades religiosas, em visdes santas, nos desvarios daquele povo est#pido-eu
vos direi-misria! misria! t vezes misria! Tudo aquilo e falso- mentiram como as
miragens do deserto!

-Estas brio, Johann! O ate!smo e a insnia como o idealismo m!stico de
Schelling, o pante!smo de Spinoza o judeu, e o crente de Malebranche nos seus sonhos da
visFo em Deus. A verdadeira filosofia e o epicurismo. Hume bem o disse: o fim do homem
e o prazer. Dai vede que e o elemento sens!vel quem domina. E pois ergamo-nos, nos que
amanhecemos nas noites desbotadas de estudo insano, e vimos que a ccia e falsa e
esquiva, que ela mente e embriaga como um beijo de mulher.

-Bem! muito bem! e um toast de respeito!

-Quero que todos se levantem, e com a cabea descoberta digam-no: Ao Deus
Pan da natureza, aquele que a antiguidade chamou Baeo o filho das coxas de um deus e do
amor de uma mulher, e que nos chamamos melhor pelo seu nome-o vinho.

-Ao vinho! ao vinho!

Os copos cairam vazios na mesa.

-Agora ouvi-me, senhores! entre uma sa#de e uma baforada de fumaa, quando
as cabeas queimam e os cotovelos se estendem na toalha molhada de vinho, como os
braos do carniceiro no cepo gotejaste, o que nos cabe e uma historia sanguinolenta, um
daqueles contos fantsticos-como Hoffmann os delirava ao clarFo dourado do
Johannisberg!

-Uma historia medonha, nFo Archibald?-falou um moco plido que a esse
reclamo erguera a cabea amarelenta. Pois bem, dir-vos-ei uma historia. Mas quanto a essa,

podeis tremer a gosto, podeis suar a frio da fronte grossas bagas de terror. NFo e um conto,
e uma lembrana do passado.

-Solfieri! Solfieri! ai vens com teus sonhos!

-Conta!

Solfieri falou: os mais fizeram sicio
II

SOLFIERI

Yet one kiss on your pale clay


And those lips once so warm beart! my bears! my bears!

BYRON-Cain

Sabeis-lo. Roma e a cidade do fanatismo e da perdio: na
alcove do sacerdote dorme a gosto a amsia,
no leito da vendida se pendura o Crucifixo lvido.  um
requintar de gozo blasfemo que mescla o sacrilgio a
convulso do amor, o beijo lascivo a embriaguez da crena!
Era em Roma. Uma noite a lua ia bela como vai ela
no vero pr aquele cu morno, o fresco das guas se
exalava como um suspiro do leito do Tibre. A noite ia
bela. Eu passeava a ss pela ponte de As luzes se apagaram uma por uma nos
palcios, as ruas se fazias ermas,
e a lua de sonolenta se escondia no leito de nuvens. Uma
sombra de mulher apareceu numa janela solitria e es
cura. Era uma forma branca.-A face daquela mulher
era como a de uma esttua plida a lua. Pelas faces dela,
como gotas de uma taa cada,, rolavam fios de lgrimas.

Eu me encostei a aresta de um palcio. A viso desapareceu no escuro da janela e
da um canto se derramava. No era s uma voz melodiosa: havia naquele cantar um como
choro de frenesi, um como gemer de insnia: aquela voz era sombria como a do vento a
noite nos cemitrios cantando a nnia das flores murchas da morte.

Depois o canto calou-se. A mulher apareceu na porta. Parecia espreitar se havia
algum nas ruas. No viu a ningum-saiu. Eu segui-a.

A noite ia cada vez mais alta: a lua sumira-se no cu, e a chuva caa as gotas
pesadas: apenas eu sentia nas faces carem-me grossas lgrimas de gua, como sobre um
tmulo prantos de rfo..


Andamos longo tempo pelo labirinto das ruas: enfim ela parou: estvamos num
campo.

Aqui, ali, alm eram cruzes que se erguiam de entre o ervaal. Ela ajoelhou-se.
Parecia soluar: em torno dela passavam as aves da noite.

No sei se adormeci: sei apenas que quando amanheceu achei-me a ss no
cemitrio. Contudo a criatura plida no fora uma iluso-as urzes, as cicutas do campo
santo estavam quebradas junto a uma cruz.

O frio da noite, aquele sono dormido a chuva, causaram-me uma febre. No meu
delrio passava e repassava aquela brancura de mulher, gemiam aqueles soluos e todo
aquele devaneio se perdia num canto suavssimo...

Um ano depois voltei a Roma. Nos beijos das mulheres nada me saciava: no sono
da saciedade me vinha aquela viso.

        Uma noite, e aps uma orgia, eu deixara dormida no leito dela a condessa
Barbara. Dei um ltimo olhar quela forma nua e adormecida com a febre nas faces e a
lascvia nos lbios midos, gemendo ainda nos sonhos como na agonia volutuosa do amor.
-Sa.. -No sei se a noite era lmpida ou negra-sei apenas que a cabea me escaldava de
embriaguez. As taas tinham ficado vazias na mesa: nos lbios daquela criatura eu bebera
ate a ltima gota o vinho do deleite.

Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus
raios brancos entre as vidraas de um templo. As luzes de quatro crios batiam num caixo
entreaberto. Abri-o: era o de uma moa. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte
na fronte dela, naquela tez lvida e embaada, o vidrento dos olhos mal apertados... Era uma
defunta! ... e aqueles traos todos me lembraram uma idia perdida. . -Era o anjo do
cemitrio? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por que, eu achara abertas. Tomei o
cadver nos meus braos para fora do caixo. Pesava como chumbo.

Sabeis a historia de Maria Stuart degolada e o algoz, "do cadver sem cabea e o
homem sem corao" como a conta Brantme?Foi uma idia singular a que eu tive.

Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lbios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o
sudrio, despi-lhe o vu e a capela como o noivo as despe a noiva. Era uma forma
purssima.. Meus sonhos nunca me tinham evocado uma estatua to perfeita. Era mesmo
uma esttua: to branca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de mbar que
lustra os mrmores antigos. O gozo foi fervoroso-cevei em perdio aquela viglia. A
madrugada passava j froixa nas janelas. quele calor de meu peito, a febre de meus lbios,
a convulso de meu amor, a donzela plida parecia reanimar-se. Sbito abriu os olhos
empanados. -Luz sombria alumiou-os como a de uma estrela entre nvoa-, apertou-me
em seus braos, um suspiro ondeou-lhe nos beios azulados. No era j a  um desmaio. No
aperto daquele abrao havia contudo alguma coisa de horrvel. O leito de ljea onde eu
passara uma hora de embriaguez me resfriava. Pude a custo soltar-me daquele aperto do
peito dela. Nesse instante ela acordou.

Nunca ouvistes falar da catalepsia? E um pesadelo horrvel aquele que gira ao
acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que sentem-se os membros
tolhidos, e as faces banhadas de lgrimas alheias sem poder revelar a vida!

A moa revivia a pouco e pouco. Ao acordar desmaiara. Embucei-me na capa e
tomei-a nos braos coberta com seu sudrio como uma criana. Ao aproximar-me da porta
topei num corpo; abaixei-me-olhei: era algum coveiro do cemitrio da igreja que a
dormira de brio, esquecido de fechar a porta .

Sa.-Ao passar a praa encontrei uma patrulha -Que levas a?

A noite era muito alta-talvez me cressem um ladro.

-E minha mulher que vai desmaiada

-Uma mulher! Mas essa roupa branca e longa? Sers acaso roubador de
cadveres?

Um guarda aproximou-se. Tocou-lhe a fronte-era fria.

-E uma defunta

Cheguei meus lbios aos dela. Senti um bafejo morno.-Era a vida ainda.

-Vede, disse eu.

O guarda chegou-lhe os lbios: os beios speros roaram pelos da moa. Se eu
sentisse o estalar de um beijo. . o punhal j estava nu em minhas mos frias

-Boa noite, moo: podes seguir, disse ele.

Caminhei.-Estava cansado. Custava a carregar o meu fardo: e eu sentia que a
moa ia despertar. Temeroso de que ouvissem-na gritar e acudissem, corri com mais
esforo. .

Quando eu passei a porta ela acordou. O primeiro som que lhe saiu da boca foi um
grito de medo

Mal eu fechara a porta, bateram nela. Era um bando de libertinos meus
companheiros que voltavam da orgia. Reclamaram que abrisse.

Fechei a moa no meu quarto-e abri.

Meia hora depois eu os deixava na sala bebendo ainda.

A turvao da embriaguez fez que no notassem minha. ausncia.

Quando entrei no quarto da moa vi-a erguida. Ria de um rir convulso como a
insnia,, e frio como a folha de uma espada. Trespassava de dor o ouvi-la.

Dois dias e duas noites levou ela de febre assim No houve como sanar-lhe aquele
delrio, nem o rir do frenesi. Morreu depois de duas noites e dois dias de delrio.

A noite sai-fui ter com um estaturio que trabalhava perfeitamente em cera-e
paguei-lhe uma esttua dessa virgem.

Quando o escultor saiu, levantei os tijolos de mrmore do meu quarto, e com as
mos cavei a um tmulo.-Tomei-a ento pela ltima vez nos braos, apertei-a a meu
peito muda e fria, beijei-a e cobri-a adormecida do sono eterno com o lenol de seu leito.-
Fechei-a no seu tmulo e estendi meu leito sobre ele.

Um ano-noite a noite-dormi sobre as lajes que a cobriam Um dia o estaturio
me trouxe a sua obra. -Paguei-lha e paguei o segredo

No te lembras, Bertram, de uma forma branca de mulher que entreviste pelo vu

do meu cortinado? No te lembras que eu te respondi que era uma virgem que dormia?

-E quem era essa mulher, Solfieri?

-Quem era? seu nome?

-Quem se importa com uma palavra quando sente que o vinho lhe queima assaz
os lbios? quem pergunta o nome da prostituta com quem dormia e que sentiu morrer a seus
beijos, quando nem ha dele mister por escrever-lho na lousa?

Solfieri encheu uma taa-Bebeu-a.-Ia erguerse da mesa quando um dos
convivas tomou-o pelo brao.

-Solfieri, no e um conto isso tudo?

-Pelo inferno que no! por meu pai que era conde e bandido, por minha me que
era a bela Messalina das ruas-pela perdio que no! Desde que eu prprio calquei aquela
mulher com meus ps na sua cova de terra -eu v-lo juro-guardei-lhe como amuleto a
capela de defunta.-Ei-la!

Abriu a camisa, e viram-lhe ao pescoo uma grinalda de flores mirradas.

-Vede-la murcha e seca como o crnio dela!


III

BERTRAM

But why should I for others groan, When none will sigh for me/

CHILDE HAROLD, I.

Um outro conviva se levantou.

Era uma cabea ruiva, uma tez branca, uma daquelas criaturas fleumticas que no
hesitaram ao tropear num cadver pare ter mo de um fim.

Esvaziou o copo cheio de vinho, e com a barba nas mos alvas, com os olhos de verde-mar
fixos, falou:

-Sabeis, uma mulher levou-me a perdio .Foi ela quem me queimou a fronte nas orgias,
e desbotou-me os lbios no ardor dos vinhos e na moleza de seus beijos: quem me fez devassar
plido as longas noites de insnia nas mesas do jogo, e na doidice dos abraos convulsos com que

ela me apertava o seio! Foi ela, vs o sabeis, quem fez-me num dia ter trs duelos com meus trs
melhores amigos, abrir trs tmulos queles que mais me amavam na vida-e depois, depois
sentir-me s e abandonado no mundo, como a infanticida que matou o seu filho, ou aquele Mouro
infeliz junto a sua Desdmona plida!

Pois bem, vou contar-vos uma histria que comea pela lembrana desta mulher.

Havia em Cadiz uma donzela-linda daquele moreno das Andaluzas que no ha v-las sob
as franjas da mantilha acetinada, com as plantas mimosas, as mos de alabastro, os olhos que
brilham e os lbios de rosa d'Alexandria-sem delirar sonhos delas por longas noites ardentes!

Andaluzas! sois muito belas! se o vinho, se as noites de vossa terra, o luar de vossas noites,
vossas flores, vossos perfumes so doces, so puros, so embriagadores-vos ainda o sois mais!
Oh! por esse eivar a eito de gozos de uma existncia fogosa nunca pude esquecer-vos!

Senhores! a temos vinho de Espanha, enchei os copos-a sade das Espanholas!

Amei muito essa moa, chamava-se ngela. Quando eu estava decidido a casar-me com
ela, quando aps das longas noites perdidas ao relento a espreitar-lhe da sombra um aceno, um
adeus, uma flor-quando aps tanto desejo e tanta esperana eu sorvi-lhe o primeiro beijo-tive de
partir da Espanha para Dinamarca onde me chamava meu pai.

Foi uma noite de soluos e lgrimas, de choros e de esperanas, de beijos e promessas, de
amor, de voluptuosidade no presente e de sonhos no futuro...Parti. Dois  anos depois foi que voltei:
quando entrei na case de meu pai, ele estava moribundo: ajoelhou-se no seu leito e agradeceu a
Deus ainda ver-me: ps as mos na minha cabea, banhou-me a fronte de lgrimas-eram as
ltimas -depois deixou-se cair, ps as mos no peito, e com os olhos em mim murmurou-Deus!

A voz sufocou-se-lhe na garganta: todos choravam.

Eu tambm chorava-mas era de saudades de ngela

Logo que pude reduzir minha fortuna a dinheiro pu-la no banco de Hamburgo, e parti pare
a Espanha.

Quando voltei. ngela estava casada e tinha um filho...

Contudo meu amor no morreu! Nem o dela!

Muito ardentes foram aquelas horas de amor e de lgrimas, de saudades e beijos, de sonhos
e maldies pare nos esqueceremos um do outro.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Uma noite, dois vultos alvejavam nas sombras de um jardim, as folhas tremiam ao ondear
de um vestido, as brisas soluavam aos soluos de dois amantes, e o perfume das violetas que eles
pisavam, das roses e madressilvas que abriam em torno dele era ainda mais doce perdido no
perfume dos cabelos soltos de uma mulher

Essa noite-foi uma loucura! foram poucas horas de sonhos de fogo! e quo breve
passaram! Depois a essa noite seguiu-se outra, outra e muitas noites as folhas sussurraram ao roar
de um passo misterioso, e o vento se embriagou de deleite nas nossas frontes plidas...

Mas um dia o marido soube tudo: quis representar de Otelo com ela. Doido

Era alta noite: eu esperava ver passar nas cortinas brancas a sombra do anjo. Quando
passei, uma voz chamou-me. Entrei-ngela com os ps nus, o vestido solto, o cabelo desgrenhado
e os olhos ardentes tomou-me pela mo Senti-lhe a mo mida Era escura a escada que subimos:
passei a minha mo molhada pela dela por meus lbios.-Tinha saibo de sangue.

- Sangue, ngela! De quem e esse sangue?

A Espanhola sacudiu seus longos cabelos negros e riu-se.

Entramos numa sala. Ela foi buscar uma luz, e deixou-me no escuro.

Procurei, tateando, um lugar para assentar-me: toquei numa mesa. Mas ao passar-lhe a mo
senti-a banhada de umidade: alm senti uma cabea fria como neve e molhada de um lquido
espesso e meio coagulado. Era sangue.

Quando ngela veio com a luz, eu vi Era horrvel. O marido estava degolado.

Era uma esttua de gesso lavada em sangue Sobre o peito do assassinado estava uma
criana de bruos. Ela ergueu-a pelos cabelos Estava morta tambm: o sangue que corria das veias

rotas de seu peito se misturava com o do pai!

-Vs,, Bertram, esse era o meu presente: agora ser, negro embora, um sonho do meu
passado. Sou tua e tua s. Foi por ti que tive fora bastante para tanto crime Vem, tudo esta pronto,
fujamos. A ns o futuro!

Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Era um viajar sem fim. ngela vestia-se
de homem: era um formoso mancebo assim. No demais ela era como todos os moos libertinos que
nas mesas da orgia batiam com a taa na taa dela. Bebia j como uma inglesa, fumava como uma
Sultana, montava a cavalo como um rabe,, e atirava as armas como um espanhol.

Quando o vapor dos licores me ardia a fronte ela m'a repousava em seus joelhos, tomava
um bandolim e me cantava as modas de sua terra

Nossos dias eram lanados ao sono como prolas ao amor: nossas noites sim eram belas!

Um dia ela partiu: partiu, mas deixou-me os lbios ainda queimados dos seus, e o corao
cheio de grmen de vcios que ela a lanara. Partiu. Mas sua lembrana ficou como o fantasma de
um mau anjo perto de meu leito.

Quis esquec-la no jogo, nas bebidas, na paixo dos duelos. Tornei-me um ladro nas
cartas, um homem perdido por mulheres e orgias, um espadachim terrvel e sem corao.

Uma noite eu cara brio as portas de um palcio: os cavalos de uma carruagem
pisaram-me ao passar e partiram-me a cabea de encontro a ljea. Acudiram-me desse palcio.
Depois amaram-me: a famlia era um nobre velho vivo e uma beleza peregrina de dezoito anos.
No era amor de certo o que eu sentia por ela- no sei o que foi - era uma fatalidade infernal. A
pobre inocente amou-me; e eu recebido como o hspede de Deus sob o teto do velho fidalgo,
desonrei-lhe a filha, roubei-a, fugi com ela E o velho teve de chorar suas cs manchadas na desonra
de sua filha, sem poder vingar-se.

Depois enjoei-me dessa mulher. -A saciedade c um tdio terrvel-uma noite que eu
jogava com Siegfried-o pirata, depois de perder as ltimas jias dela, vendi-a.

A moa envenenou Siegfried logo na primeira noite, e afogou-se


Eis a quem eu sou: se quisesse contar-vos longas historias do meu viver, vossas viglias
correriam breves demais.

Um dia-era na Itlia-saciado de vinho e mulheres eu ia suicidar-me A noite era escura e
eu chegara s na praia. Subi num rochedo: dai minha ltima voz foi uma blasfmia, meu ltimo
adeus uma maldio... meu ltimo digo mal; porque senti-me erguido nas guas pelo cabelo.

Ento na vertigem do afogo o anelo da vida acordou-se em mim. A princpio tinha sido
uma cegueira -uma nuvem ante meus olhos, como aos daquele que labuta na trevas. A sede da
vida veio ardente: apertei aquele que me socorria: fiz tanto, em uma palavra, que, sem quer-lo,
matei-o. Cansado do esforo desmaiei

Quando recobrei os sentidos estava num escaler de marinheiros que remavam mar em fora.
A soube eu que meu salvador tinha morrido afogado por minha culpa. Era uma sina, e negra; e por
isso ri-me; ri-me, enquanto os filhos do mar choravam.

Chegamos a uma corveta que estava erguendo ncora.

O comandante era um belo homem. Pelas faces vermelhas caiam-lhe os crespos cabelos
loiros onde a velhice alvejava algumas cs.

Ele perguntou-me:

-Quem s?

-Um desgraado que no pode viver na terra, e no deixaram morrer no mar.

-Queres pois vir a bordo?

-A menos que no prefirais atirar-me ao mar.

-No o faria: tens uma bela figura. Levar-te-ei comigo. Servirs...

-Servir!-e ri-me: depois respondi-lhe frio: deixai que me atire ao mar

-No queres servir? queres ento viajar de braos cruzados?

-No: quando for a hora da manobra dormirei: mas quando vier a hora do combate
ningum ser mais alente do que eu

-Muito bem:: gosto de ti, disse o velho lobo do mar. Agora que estamos conhecidos

dize-me teu nome e tua histria.

-Meu nome e Bertram. Minha histria? escutai: Q passado e um tmulo! Perguntai ao
sepulcro a historia do cadver! guarda o segredo ele dir-vos-a apenas que tem no seio um corpo que
se corrompe! tereis sobre a lousa um nome-e no mais!

O comandante franziu as sobrancelhas, e passou adiante para comandar a manobra.

O comandante trazia a bordo uma bela moa. Criatura plida, parecera a um poeta o anjo
da esperana adormecendo esquecido entre as ondas. Os marinheiros a respeitavam: quando pelas
noites de lua ela repousava o brao na amurada e a face na mo aqueles que passavam junto dela se
descobriam respeitosos. Nunca ningum lhe vira olhares de orgulho, nem lhe ouvira palavras de
clera: era uma santa.

Era a mulher do comandante.

 Entre aquele homem brutal e valente, rei bravio ao alto mar, esposado, como os Doges de
Veneza ao Adritico, a sua garrida corveta-entre aquele homem pois e aquela mandona havia um
amor de homem como palpita o peito que longas noites abriu-se as luas do oceano solitrio, que
adormeceu pensando nela ao frio das vagas e ao calor dos trpicos, que suspirou nas horas de
quarto, alta noite na amurada do navio, lembrando-a nos nevoeiros da cerrao, nas nuvens da
tarde. Pobres doidos! parece que esses homens amam muito! A bordo ouvi a muitos marinheiros
seus amores singelos: eram moas loiras da Bretanha e da Normandia, ou alguma Espanhola de
cabelos negros vista ao passar-sentada na praia com sua cesta de flores-ou adormecida entre os
laranjais cheirosos-ou danando o fandango lascivo nos bailes ao relento! Houve junto a mim
muitas faces speras e tostadas ao sol do mar que se banharam de lgrimas.... .

Voltemos a histria.-O comandante a estremecia como um louco-um pouco menos que
a sua honra, um pouco mais que sua corveta.

E ela-ela no meio de sua melancolia, de sua tristeza e sua palidez-ela sorria as vezes
quando cismava sozinha-mas era um sorrir to triste que doa. Coitada!

Um poeta a amaria de joelhos. Uma noite-de certo eu estava brio-fiz-lhe uns versos.

Na lnguida poesia, eu derramara uma essncia preciosa e lmpida que ainda no se polura no
mundo. . .

Bof que chorei quando fiz esses versos. Um dia. meses depois-li-os, ri-me deles e de
mim e atirei-os ao mar. . . Era a ltima folha da minha virgindade que lanava ao esquecimento.

Agora, enchei os copos: o que vou dizer-vos e negro: e uma lembrana horrvel, como os
pesadelos no Oceano.

Com suas lgrimas, com seus sorrisos, com seus olhos midos, e os seios intumescidos de
suspiro-aquela mulher me enlouquecia as noites. Era como uma vida nova que nascia cheia de
desejos, quando eu cria que todos eles eram mortos como crianas afogadas em sangue ao nascer.

Amei-a: por que dizer-vos mais? Ela amou-me tambm. Uma vez a luz ia lmpida e serena
sobre as guas -as nuvens eram brancas como um vu recamado de prolas da noite-o vento
cantava nas cordas. Bebi-lhe na pureza desse luar, ao fresco dessa noite, mil beijos nas faces
molhadas de lgrimas, como se bebe o orvalho de um lrio cheio. Aquele seio palpitante, o contorno
acetinado, apertei-os sobre mim

O comandante dormia.

Uma vez ao madrugar o gajeiro assinalou um navio. Meia hora depois desconfiou que era
um pirata...

Chegavamos cada vez mais perto. Um tiro de plvora seca da corveta reclamou a bandeira.
No responderam. Deu-se segundo-nada. Ento um tiro de bala foi cair nas guas do barco
desconhecido como uma luva de duelo. O barco que ate ento tinha seguido rumo oposto ao nosso e
vinha proa contra nossa proa virou de bordo e apresentou-nos seu flanco enfumaado: um
relmpago  correu nas baterias do pirata-um estrondo seguiu-se-e uma nuvem de balas veio
morrer perto da corveta.

Ela no dormia, virou de bordo: os navios ficaram lado a lado. A descarga do navio de
guerra o pirata estremeceu como se quisesse ir a pique.

O pirata fugia: a corveta deu-lhe caa as descargas trocaram-se ento mais fortes de ambos
os lados.


Enfim o pirata pareceu ceder. Atracaram-se os dois navios como para uma luta. A corveta
vomitou sua gente a bordo do inimigo. O combate tornou-se sangrento- era um matadouro: o cho
do navio escorregava de tanto sangue: o mar ansiava cheio de escumas ao boiar de tantos cadveres.
Nesta ocasio sentiu-se uma fumaa que subia do poro. O pirata dera fogo as plvora. . . Apenas a
corveta por uma manobra atrevida pde afastar-se do perigo. Mas a exploso fez-lhe grandes
estragos. Alguns minutos depois o barco do pirata voou pelos ares. Era uma cena pavorosa ver entre
aquela fogueira de chamas, ao estrondo da plvora, ao reverberar deslumbrador do fogo nas guas,
os homens arrojados ao ar irem cair no oceano.

Uns a meio queimados se atiravam a gua, outros com os membros esfolados e a pele a
despegar-se-lhes do corpo nadavam ainda entre dores horrveis e morriam torcendo-se em
maldies

A uma lgua da cena do combate havia uma praia bravia, cortada de rochedos A se
salvaram os piratas que puderam fugir.

E nesse tempo enquanto o comandante se batia como um bravo, eu 0 desonrava como um
covarde.

No sei como se passou o tempo todo que decorreu depois. Foi uma viso de gozos
malditos - eram os amores de Satan e de Eloa, da morte e da vida, no leito do mar.

Quando acordei um dia desse sonho, o navio tinha encalhado num banco de areia: o ranger
da quilha a morder na areia gelou a todos Meu despertar foi a um grito de agonia

-Ola, mulher! taverneira maldita, no vs que Q vinho acabou-se?

Depois foi um quadro horrvel! ramos ns numa jangada no meio do mar. Vs que lestes
o Don Juan, que fizestes talvez daquele veneno a vossa Bblia, que dormistes as noites da saciedade
como eu, com a face sobre ele-e com os olhos ainda fitos nele vistes tanta vez amanhecer-sabeis
quanto se core de horror ante aqueles homens atirados ao mar, num mar sem horizonte, ao balouo
das guas, que parecem sufocar seu escrnio na mudez fria de uma fatalidade!

Uma noite-a tempestade veio-apenas houve tempo de amarrar nossas munies Fora

mister ver o Oceano bramindo no escuro como um bando de lees com fome, pare saber o que e a
borrasca-fora mister ye-la de uma jangada a luz da tempestade, as blasfmias dos que no crem e
maldizem, as lgrimas dos que esperam e desesperam, aos soluos dos que tremem e tiritam de
susto como aquele que bate a porta do nada... E eu, eu ria: era como o gnio do ceticismo naquele
deserto. Cada vaga que varria nossas tbuas descosidas arrastava um homem-mas cada vaga que
me rugia aos ps parecia respeitar-me. Era um Oceano como aquele de fogo onde caram os anjos
perdidos de Milton-o cego: quando eles passavam cortando-as a nado, as guas do pntano de lava
se apertavam: a morte era pare os filhos de Deus -no pare o bastardo do mal!

Toda aquela noite passei-a com a mulher do comandante nos braos. Era um himeneu
terrvel aquele que se consumava entre um descrido e uma mulher plida que enlouquecia: o tlamo
era o Oceano, a escuma das vagas era a seda que nos a alcatifava o leito. Em meio daquele concerto
de uivos que nos ia ao p, os gemidos nos sufocavam: e ns rolvamos abraados-atados a um
cabo da jangada - por sobre as tbuas

Quando a aurora veto, restvamos cinco: era, a mulher do comandante, ele e dois
marinheiros-.

Alguns dias comemos umas bolachas repassadas da salsugem da gua do mar. Depois tudo
o que houve de mais horrvel se passou .

-Por que empalideces, Solfieri? a vida e assim. Tu o saber como eu o sei. O que e o
homem? e a escuma que ferve hoje na torrente e amanha desmaia: alguma coisa de louco e
movedio como a vaga, de fatal como o sepulcro! O que e a existncia? Na mocidade e o
caleidoscpio das iluses:: vive-se ento da seiva do futuro. Depois envelhecemos quando
chegamos aos trinta anos e o suor das agonies nos grisalhou os cabelos antes do tempo, e
murcharam como nossas faces as nossas esperanas, oscilamos entre o passado visionrio, e este
amanha do velho, gelado e ermo-despido como um cadver que se banha antes de dar a sepultura!
Misria! loucura!

-Muito bem!! misria e loucura! -interrompeu uma voz.

O homem que falara era um velho. A fronte se lhe descalvara, e longas e fundas rugas a
sulcavam-eram ondas que o vento da velhice lhe cavava no mar da vida. . Sob espessas

sobrancelhas grisalhas lampejavam-lhe os olhos pardos e um espesso bigode lhe cobria parte dos
lbios. Trazia um gibo negro e roto, e um manto desbotado, da mesma cor lhe caia dos ombros.

-Quem s, velho?-perguntou o narrador.

-Passava l fora:: a chuva caia a cntaros: a tempestade era medonha: entrei. Boa-noite,
senhores! se houver  mais uma taa na vossa mesa, enchei-a ate as bordas e beberei convosco.

-Quem es?

-Quem eu sou? na verdade fora difcil diz-lo: corri muito mundo, a cada instante
mudando de nome e de vida.-Fui poeta-e como poeta cantei.. Fui soldado, e banhei minha fronte
juvenil nos ltimos raios de sol da guia de Waterloo.-Apertei ao fogo da batalha a mo do
homem do sculo. Bebi numa taverna com Bocage-o portugus,, ajoelhei-me na Itlia sobre o
tmulo de Dante-e fui a Grecia para sonhar como Byron naquele tmulo das glrias do passado.-
Quem eu sou? Fui um poeta aos vinte anos, um libertino aos trinta -sou um vagabundo sem ptria
e sem crenas aos quarenta. Sentei-me a sombra de todos os sis-beijei lbios de mulheres de
todos os pases-e de todo esse peregrinar s trouxe duas lembranas-mu amor de mulher que
morreu nos meus braos na primeira noite de embriaguez e de febre-e uma agonia de poeta Dela,
tenho uma rosa murcha e a fita que prendia seus cabelos.-Dele-olhai. . .

O velho tirou do bolso um embrulho: era um lenol vermelho o invlucro: desataram-no:
dentro estava uma caveira.

-Uma caveira! - gritaram em torno: es um profanador de sepulturas?

-Olha, moc, se entendes a cincia de Gall e Spurzheim, dize-me pela protuberncia
dessa fronte, e pelas bossas dessa cabea quem podia ser esse homem?

-Talvez um poeta-talvez um louco.

-Muito bem! adivinhaste. S6 erraste no dizendo que talvez ambas as coisas a um tempo.
Sneca o disse- a poesia e a insnia.  Talvez o gnio seja uma alucinao, e o entusiasmo precise
da embriaguez para escrever o hino sanguinrio e fervoroso de Rouget de I'Isle,, ou pare, na criao

do painel medonho do Cristo morto de Holbein, estudar a corrupo no cadver. Na vida misteriosa
de Dante, nas orgias de Marlowe, no peregrinar, de Byron havia uma sombra da doena de Hamlet:
quem sabe?

-Mas a que vem tudo isso?

-No bradastes-misria e loucura! vs, almas onde talvez borbulhava o sopro de Deus,
crebros que a luz divindade gnio esclarecia, e que o vinho enchia de vapores e a saciedade de
escrnios? Enchei as taas ate a borda! enchei-as e bebei; bebei a lembrana do crebro que ardeu
nesse crnio, da alma que ai habitou, do poeta louco-Werner! e eu bradarei ainda uma vez:-
misria e loucura!

O velho esvaziou o copo, embuou-se e saiu. Bertram continuou a sue histria

-Eu vos dizia que ia passar-se uma coisa horrvel: no havia mais alimentos, e no homem
despertava a voz do instinto, das entranhas que tinham fome, que pediam seu cevo como 0 co do
matadouro, fosse embora sangue.

A fome! a sede! tudo quanto h de mais horrvel. .

Na verdade, senhores, o homem e uma criatura perfeita! Estaturio sublime, Deus esgotou
no talhar desse mrmore todo o seu esmero. Prometeu divino, encheu-lhe o crnio protuberante da
luz do gnio. Ergueu-o pela mo, mostrou-lhe c mundo do alto da montanha, como Satan quatro
sculos depois o fez a Cristo, e disse-lhe: V,, tudo isso e belo-vales e montes, guas do mar que
espumam, folhas das florestas que tremem e sussurram como as asas dos meus anjos-tudo isso e
teu. Fiz-te o mundo belo no vu purpreo do crepsculo,, doureit'o aos raios de minha face. Fiz-te
rei da terra! banha a fronte olmpica nessas brisas, nesse orvalho, na escuma dessas cataratas. Sonha
como a noite, canta como os anjos, dorme entre as flores! Olha! entre as folhas floridas do vale
dorme uma criatura branca como o vu das minhas virgens, loira como o reflexo das minhas
nuvens, harmoniosa como as aragens do cu nos arvoredos da terra.- E tua: acorda-a: ama-a, e ela
te amara; no seio dela, nas ondas daquele cabelo, afoga-te como o sol entre vapores. -Rei no peito
dela, rei na terra, vive de amor e crena, de poesia e de beleza, levanta-te, vai, e sers feliz!

Tudo isso e belo, sim-mas e a ironia mais amarga, a decepo mais rida de sodas as

ironias e de sodas as decepes. Tudo isso se apaga diante de dois fatos muito prosaicos-a fome e
a sede.

O gnio, a guia altiva que se perde nas nuvens, que se aquenta no eflvio da luz mais
ardente do sol-cair assim com as asas torpes e verminosas no lodo das charnecas? Poeta! porque
no meio do arroubo mais sublime do esprito, uma voz sarcstica e mefistoflica te brada-meu
Faust, iluses! a realidade e a matria: Deus escreveu Avyxn na fronte de sue criatura! -Don
juan! porque chores a esse beijo morno de Haidea que desmaia-te nos braos?? a prostituta
vender-t'os-a amanha mais queiomadores!. Misria!! E dizer que tudo o que h de mais divino no
homem, de mais santo e perfumado na alma se infunde no lodo da realidade, se revolve no charco e
ache ainda uma convulso infame pare dizer-sou feliz!. . .

Isso tudo, senhores, pare dizer-vos uma coisa muito simples um fato velho e batido-uma
pratica do mar, uma lei do naufrgio-a antropofagia.

Dois dias depois de acabados os alimentos, restavam trs pessoas: eu, o comandante e
ela-eram trs figuras macilentas como o cadver, cujos ] nus arquejavam como a agonia, cujos
olhares fundos e sombrios se injetavam de sangue como a loucura.

O uso do mar-no quero dizer a voz da natureza fsica,, o brado do egosmo do homem-
manda a morte de um para a vida de todos. -Tiramos a sorte-o comandante teve por lei morrer.

Ento o instinto de vida se lhe despertou ainda Por um dia mais, de existncia, mais um dia
de fome e sede, de leito mido e varrido pelos ventos frios do norte, mais umas horas mortas de
blasfmia e de agonia, de esperana e desespero-de oraes e descrenas-de febre e de nsia-o
homem ajoelhou-se, chorou, gemeu a meus ps...

-Olhai, dizia o miservel,, esperemos ate amanha. . Deus ter compaixo de nos Por
vossa me,, pelas entranhas de vossa me!!! por Deus se ele existe! deixai, deixai-me ainda viver!

Oh! a esperana e pois como uma parasita que morde e despedaa o tronco, mas quando
ele cai, quando morre e apodrece, ainda o aperta em seus convulsos braos! Esperar! quando o
vento do mar aouta as ondas, quando a escuma do oceano vos lava o corpo lvido e nu, quando o
horizonte e deserto e sem termo, e as velas que;. branqueiam ao longe parecem fugir! Pobre louco!

Eu ri-me do velho.-Tinha as entranhas em fogo. -Morrer hoje, amanha, ou depois-tudo
me era indiferente, mas hoje eu tinha fome, e ri-me porque tinha fome.
O velho lembrou-me que me acolhera a seu bordo, por piedade de mim-lembrou-me que
me amava- e uma torrente de soluos e lgrimas afogava o bravo que nunca empalidecera diante
da morte.

Parece que a morte no oceano e terrvel para os outros homens: quando o sangue lhes
salpica as faces, lhes ensopa as mos, correm a morte como um rio ao mar-como a cascavel ao
fogo. Mas assim-no deserto -nas guas-eles temem-na, tremem diante dessa caveira fria da
morte!

Eu ri-me porque tinha fome.

Ento o homem ergueu-se. A fria levantou nele -com a ultima agonia. Cambaleava, e
um suor frio lhe corria no peito descarnado.-Apertou-me nos seus braos amarelentos e lutamos
ambos corpo a corpo, peito a peito, p por p-por um dia de misria!

A lua amarelada erguia sua face desbotada, como uma meretriz cansada de uma noite de
devassido - do cu escuro parecia zombar desses dois moribundos que lutavam por uma hora de
agonia. . .

O valente do combate desfalecia-caiu: pus-lhe o p na garganta-sufoquei-o-e expirou..
.

No cubrais o rosto com as mos - farieis mesmo. . . Aquele cadver foi nosso alimento
dois dias. ..

Depois, as aves do mar j baixavam para partilhar minha presa; e as minhas noites
fastientas uma sombra vinha reclamar sua rao de carne humana. . .

Lancei os restos ao mar. . .

Eu e a mulher do comandante passamos-um dia. dois-sem comer nem beber. . .

Ento ela props-me morrer comigo.-Eu disse-lhe que sim. Esse dia foi a ultima agonia
do amor que nos queimava: gastomo-lo em convulses para sentir ainda o mel fresco da

voluptuosidade banhar-nos os lbios. . . Era o gozo febril que podem ter duas criaturas em delrio de
morte. Quando soltei-me dos braos dela a fraqueza a fazia desvairar. O delrio tornava-se mais
longo, mais longo: debruava-se nas ondas e bebia a gua salgada, e oferecia-m'a nas mos plidas,
dizendo que era vinho. As gargalhadas frias vinham mais de entuviada

Estava louca.

No dormi-no podia dormir: uma modorra ardente me fervia as plpebras: o hlito de meu
peito parecia fogo: meus lbios secos e estalados apenas se orvalham  de sangue.

Tinha febre no crebro-e meu estmago tinha fome. Tinha fome como a fera.

Apertei-a nos meus braos, oprimi-lhe nos beios a minha boca em fogo: apertei-a
convulsivo-sufoquei-a. Ela era ainda to bela!

No sei que delrio estranho se apoderou de mim. Uma vertigem me rodeava. O mar
parecia rir de mim, c rodava em torno, escumante e esverdeado, como um sorvedoiro. As nuvens
pairavam correndo e pareciam filtrar sangue negro. O vento que me passava nos cabelos
murmurava uma lembrana..

De repente senti-me s. Uma onda me arrebatara o cadver. Eu a vi boiar plida como suas
roupas brancas, seminua, com os cabelos banhados de gua:: eu via-a erguer-se na escuma das
vagas, desaparecer, e boiar de novo: depois no 2 distingui mais-era como a escuma das vagas,
como um lenol lanado nas guas...

Quantas horas quantos dias passei naquela modorra nem o sei . Quando acordei desse
pesadelo de homem desperto, estava a bordo de um navio.

Era o brigue ingls Swallow, que me salvara

Ol, taverneira, bastarda de Satan, no vs que tenho sede, e as garrafas esto secas, secas
como tua face como nossas gargantas?


IV

GENNARO

Meurs ou tue!

CORNEILLE

-Gennaro, dormes, ou embebes-te no sabor do ultimo trago do vinho, da ltima
fumaa do teu cachimbo?

-No: quando contavas tua historia, lembrava-me uma folha da vida, folha seca e
avermelhada como as do outono, e que o vento varreu.

- Uma historia?

-Sim: e uma das minhas historias: sabes, Bertram, eu sou pintor, e uma
lembrana triste essa que vou revelar, porque e a historia de um velho e de duas mulheres,
belas como duas vises de luz.

Godofredo Walsh era um desses velhos sublimes, em cujas cabeas as cs
semelham o diadema prateado do gnio. Velho j, casara em segundas npcias com uma
beleza de vinte anos.  era pintor: diziam uns que este casamento fora um amor artstico por
aquela beleza Romana, como que feita ao molde das belezas antigas-outros criam-no
compaixo pela pobre moca que vivia de servir de modelo. O fato e que ele a queria como
filha-como Laura, a filha nica de seu primeiro casamento-Laura, corada como uma
rosa, e loira como um anjo.

Eu era nesse tempo moo era aprendiz de pintura em case de Godofredo. Eu era
lindo ento! que trinta anos l vo! que ainda os cabelos e as faces me no haviam
desbotado como nesses longos quarenta e dois anos de vida! Eu era aquele tipo de mancebo
ainda puro do ressumbrar infantil, pensativo e melanclico como o Rafael se retratou no
quadro da galeria Barberini. Eu tinha quase a idade da mulher do mestre.-Nauza tinha
vinte -e eu tinha dezoito anos.

Amei-a, mas meu amor era puro como meus sonhos de dezoito anos. Nauza
tambm me amava: era um sentir to puro! era uma emoo solitria e perfumosa como as
primaveras cheias de flores e de brisas que nos embalavam aos cus da Itlia..

Como eu o disse-o mestre tinha uma filha chamada Laura. Era uma moca plida,
de cabelos castanhos e olhos azulados; sue tez era branca, e s as vezes, quando Q pejo a
incendia, duas rosas lhe avermelhavam a face e se destacavam no fundo de mrmore. Laura

parecia querer-me como a um irmo.. Seus risos,, seus beijos de criana de quinze anos
eram s pare mim. A noite, quando eu ia deitar-me, ao passar pelo corredor escuro com
minha lmpada,, uma sombra me apagava a luz e um beijo me pousava nas faces, nas
trevas.

Muitas noites foi assim.

Uma manh-eu dormia ainda-o mestre sara e Nauza fora a igreja-quando
Laura entrou no meu quarto e fechou a porta: deitou-se a meu lado. Acordei -nos braos
dela.

O fogo de meus dezoito anos, a primavera virginal de uma beleza, ainda inocente,
o seio seminu de uma donzela a bater sobre 0 meu: isso tudo ao despertar dos sonhos alvos
da madrugada, me enlouqueceu...

Todas as manhas Laura vinha a meu quarto. . .

Trs meses passaram assim. Um dia entrou ela no meu quarto e disse-me:

-Gennaro, estou desonrada pare sempre... A principio eu quis-me iludir-j no
o posso-estou de esperanas. . .

Um raio que me casse aos p ps me assustaria tanto.

- E preciso que cases comigo- pai, ouves, Gennaro?

Eu calei-me.

-No me amas ento?

Calei-me ainda.

-Oh! Gennaro, Gennaro!

E caiu no meu ombro desfeita em soluos. Carreguei-a assim fria e fora de si pare
seu quarto.

Nunca mais tornou a falar-me em casamento.

Que havia de eu fazer? contar tudo ao pai e pedi-la em casamento? Fora uma
loucura... Ele me mataria e a ela: ou pelo menos me expulsaria de sue casa...: E Nauza?
cada vez eu a amava mais. Era uma lute terrvel essa que se travava entre o dever e o amor,
e entre o dever e o remorso.


Laura no me falara mais. Seu sorriso era frio: cada dia tornava-se mais plida,
mas a gravidez no crescia, antes mais nenhum sinal se lhe notava . .

O velho levava as noites passeando no escuro. J no pintava. Vendo a filha que
morria aos sons secretos de uma harmonia de morte, que empalidecia cada vez mais, o
misrrimo arrancava as cs.

Eu contudo no esquecera Nauza, nem ela se esquecia de mim. Meu amor era
sempre o mesmo: eram sempre noites de esperana e de sede que me banhavam de lgrimas
o travesseiro. S as vezes a sombra de um remorso me passava, mas a imagem dela
dissipava todas essas nvoas . . .

Uma noite... foi horrvel... vieram chamar-me: Laura morria. Na febre murmurava
meu nome e palavras que ningum podia reter, to apressadas e confusas lhe soavam.
Entrei no quarto dela: a doente conheceu-me. Ergueu-se branca, com a face mida de um
suor copioso: chamou-me. Sentei-me junto do leito dela. Apertou minha mo nas suas mos
frias e murmurou em meus ouvidos:

-Gennaro, eu te perdo: eu te perdo tudo.Eras um infame. . . Morrerei. . . Fui
uma louca. . . Morrerem.. por tua causa... teu filho... o meu... vou v-lo ainda.. . mas no
cu... Meu filho que matei. .. antes de nascer...

Deu um grito: estendeu convulsivamente os braos como para repelir uma idia,
passou a mo pelos lbios como para enxugar as ultimas gotas de uma bebida, estorceu-se
no leito, lvida, fria, banhada de suor gelado, e arquejou. . . Era o ultimo suspiro.

Um ano todo se passou assim para mim. O velho parecia endoidecido. Todas as
noites fechava-se no quarto onde morrera Laura: levava ai a noite toda em solido. Dormia?
ah que no! Longas horas eu o escutei no silncio arfar com nsia,, outras vezes afogar-se
em soluos.

Depois tudo emudecia: o silencio durava horas-o quarto era escuro: e depois as
passadas pesadas do mestre se ouviam pelo quarto, mas vacilantes como de um bbedo que
cambaleia.


Uma noite eu disse a Nauza que a amava: ajoelhei-me junto dela, beijei-lhe as
mos, reguei seu colo de lgrimas. Ela voltou a face: eu cri que era desdm, ergui-me

-Ento Nauza, tu no me amas, disse eu.

Ela permanecia com o rosto voltado.

-Adeus, pois: perdoai-me se vos ofendi: meu amor e uma loucura, minha vida e
uma desesperana-o que me resta? Adeus, irei longe -longe daqui talvez ento eu possa
chorar sem remorso

Tomei-lhe a mo e beijei-a.

Ela deixou sua mo nos meus lbios.

Quando ergui a cabea, eu a vi: ela estava debulhada em lgrimas.

-Nauza-Nauza-uma palavra, tu me amas?

.................................
...

Tudo o mais foi um sonho: a lua passava entre os vidros da janela aberta, e batia
nela: nunca eu a vira to pura e divina!

.................................
...

E as noites que o mestre passava soluando no leito vazio de sua filha, eu as
passava no leito dele, nos braos de Nauza.

Uma noite houve um fato pasmoso.

O mestre veio ao leito de Nauza. Gemia e chorava aquela voz cavernosa e rouca:
tomou-me pelo brao com fora acordou-me, e levou-me de rasto ao quarto de Laura

Atirou-me ao cho: fechou a porta. Uma lmpada estava acesa no quarto defronte
de um painel. Ergueu o lenol que o cobria.-Era Laura moribunda! E eu macilento como
ela tremia como um condenado. A moca com seus lbios plidos murmurava no meu
ouvido.

Eu tremi de ver meu semblante to lvido na tela: e lembrei-me que naquele dia ao

sair do quarto da morta, no espelho dela que estava ainda pendurado a janela, eu me
horrorizara de ver-me cadavrico...

Um tremor, um calafrio se apoderou de mim. Ajoelhei-me, e chorei lgrimas
ardentes. Confessei tudo: parecia-me que era ela quem o mandava, que era Laura que se
erguia dentre os lenois do seu leito, e me acendia o remorso, e no remorso me rasgava o
peito.

Por Deus! que foi uma agonia!

No outro dia o mestre conversou comigo friamente. Lamentou a falta de sua
filha-mas sem uma lgrima: sobre o passado na noite, nem palavra.

Todas as noites era a mesma tortura, todos os dias a mesma frieza.

O mestre era sonmbulo.

E pois eu no me cri perdido.

Contudo lembrei-me que uma noite, quando eu saia do quarto de Laura com o
mestre, no escuro vira uma roupa branca passar-me por perto, roaram-me uns cabelos
soltos, e nas ljeas do corredor estalavam umas passadas tmidas de ps nus Era Nauza que
tudo vira c tudo ouvira, que se acordara e sentira minha falta no leito, que ouvira esses
soluos e gemidos, e correra para ver.

.................................
....
Uma noite, depois da ceia, o mestre Walsh tomou sua capa e uma lanterna, e
chamou-me para acompanh-lo. Tinha de sair fora da cidade e no queria ir s. Saimos
juntos: a noite era escura e fria. O outono desfolhara as arvores e os primeiros sopros do
inverno rugam nas folhas secas do cho. Caminhamos juntos muito tempo: cada vez mais
nos entranhvamos pelas montanhas, cada vez o caminho era mais solitrio. O velho parou.
Era na fralda de uma montanha. A direita o rochedo se abria num trilho: a esquerda as
pedras soltas por nossos ps a cada passada se despegavam e rolavam pelo despenhadeiro, e
instantes depois se ouvia um som como de gua onde cai um peso.

A noite era escurssima. Apenas a lanterna alumiava o caminho tortuoso que

seguamos. O velho lanou os olhos a escurido do abismo e riu-se.

-Espera-me ai, disse ele-ja venho.

Godofredo tomou a lanterna e seguiu para o cume da montanha: eu sentei-me no
caminho a sua espera: vi aquela luz ora perder-se, ora reaparecer entre os arvoredos nos
ziguezagues do caminho. Por fim vi-a parar. O velho bateu a porta de uma cabana: a porta
abriu-se. Entrou. O que ai se passou nem o sei: quando a porta abriu-se de novo uma
mulher lvida e desgrenhada apareceu com um facho na mo.

A porta fechou-se. Alguns minutos depois o mestre estava comigo.

O velho assentou a lanterna num rochedo, despiu a capa e disse-me:

-Gennaro, quero contar-te uma histria. E um crime, quero que sejas juiz dele.
Um velho era casado com uma moca bela. De outras npcias tinha uma filha bela tambm
Um aprendiz-um miservel que ele erguera da poeira, como 0 vento as vezes ergue uma
folha, mas que ele podia reduzir a ela quando quisesse.

Eu estremeci, os olhares do velho pareciam ferir-me.

-Nunca ouviste essa histria, meu bom Gennaro?

-Nunca-disse eu a custo e tremendo.

-Pois bem-esse infame desonrou o pobre velho: traiu-o como Judas ao Cristo.

-Mestre, perdo!

- Perdo! E perdoou o malvado ao pobre corao do velho?

- Piedade!

- E teve ele d da virgem, da desonra, da infnciticida?

-Perdo!-e perdoou o malvado ao pobre corao do velho?

 -Piedade!

-E teve ele d da virgem, da desonra, da infanticida?

-Ah!-gritei.

-Que tens? conheces o criminoso?


A voz de escrnio dele me abafava.

-Vs,, pois, Gennaro-- disse ele mudando de tom -, se houvesse um castigo pior
que a morte, eu t'o daria. Olha esse despenhadeiro! E medonho! se o visses de dia. teus
olhos se escureceriam e ai rolarias talvez-de vertigem! E um tmulo seguro: e guardara o
segredo, como um peito o punhal. S6 os corvos iro l ver-te, s os corvos e os vermes. E
pois, se tens ainda no corao maldito um remorso, reza tua ultima orao: mas seja breve.
O algoz espera a vitima: a hiena tem fome de cadver.

Eu estava ali pendente junto a morte. Tinha s a escolher o suicdio ou ser
assassinado. Matar o velho era impossvel. Uma luta entre mim e ele fora insana. Ele era
robusto, a sua estatura alta, seus braos musculosos me quebrariam como o vendaval
rebenta um ramo seco. Demais, ele estava armado. Eu-eu era uma criana dbil: ao meu
primeiro passo ele me arrojaria da pedra em cujas bordas eu estava... S me restaria morrer
com ele-arrast-lo na minha queda. Mas para que?

E curvei-me no abismo: tudo era negro: o vento l gemia embaixo nos ramos
desnudos, nas urzes, nos espinhais ressequidos, e a torrente l chocalhava no fundo
escumando nas pedras.

Eu tive medo.

Oraes, ameaas, tudo seria debalde.

-Estou pronto-disse.

O velho riu-se: infernal era aquele rir dos seus lbios estalados de febre. S vi
aquele riso Depois foi uma vertigem. o ar que sufocava, um peso que me arrastava, como
naqueles pesadelos em que se cai de uma torre e se fica preso ainda pela mo, mas a mo
cansa. fraqueja, sua, esfria... Era horrvel: ramo a ramo, folha por folha os arbustos me
estalavam nas mos, as razes secas que saiam pelo despenhadeiro estalavam sobre meu
peso e meu peito sangrava nos espinhais. A queda era muito rpida .De repente no senti
mais nada.Quando acordei estava junto a uma cabana de camponeses que me tinham
apanhado junto da torrente, preso nos ramos de uma azinheira gigantesca que assombrava o
rio.


Era depois de um dia e uma noite de delrios que eu acordara. Logo que sarei, uma
idia me veio: ir ter com o mestre. Ao ver-me salvo assim daquela morte horrvel, pode ser
que se apiedasse de mim, que me perdoasse, e ento eu seria seu escravo, seu co, tudo 0
que houvesse mais abjeto num homem que se humilha-tudo! - contanto que ele me
perdoasse. Viver com aquele remorso me parecia impossvel. Parti pois: no caminho topei
um punhal. Ergui-o: era o do mestre. Veio-me ento uma idia de vingana e de soberba.
Ele quisera matar-me, ele tinha rido a minha agonia, e eu havia ir chorar-lhe  ainda aos ps
para ele repelir-me ainda, cuspir-me nas faces, e amanha procurar outra vingana mais
segura?. . Eu humilhar-me quando ele me tinha abatido! Os cabelos me arrepiaram na
cabea, e suor frio me rolava pelo rosto.

Quando cheguei a casa do mestre achei-a fechada. Bati-no abriram. O jardim da
casa dava para a rua: saltei o muro: tudo estava deserto e as portas que davam para ele
estavam tambm fechadas. Uma delas era fraca: com pouco esforo arrombei-a. Ao
estrondo da porta que caiu s o eco respondeu nas salas. Todas as janelas estavam fechadas
e contudo era dia claro fora. Tudo estava escuro: nem uma lamparina acesa. Caminhei
tateando ate a sala do pintor. Cheguei l-abri as janelas e a luz do dia derramou-se na sala
deserta. Cheguei ento ao quarto de Nauza-abri a porta e um bafo pestilento corria da. O
raio da luz bateu em uma mesa.-Junto estava uma forma de mulher com a face na mesa, e
os cabelos cados: atirado numa poltrona um vulto coberto com um capote. Entre eles um
copo onde se depositara um resduo polvilhento. Ao p estava um frasco vazio. Depois eu o
soube-a velha da cabana era uma mulher que vendia veneno: era ela de certo que o
vendera, porque o p branco do copo parecia se-lo.

Ergui os cabelos da mulher, levantei-lhe a cabea . Era Nauza, mas Nauza cadver,
j desbotada pela 'podrido. No era aquela esttua alvssima de outrora, as faces macias e
colo de neve Era um corpo amarelo.Levantei uma ponta da capa do outro-o corpo caiu
de bruos com a cabea para baixo-ressoou no pavimento o estalo do crnio Era o
velho-morto tambm e roxo e apodrecido: eu o vi-da boca lhe corria uma escuma
esverdeada.
....................................

....



V

CLAUDIUS HERMANN

. . . Ecstasy!

My pulse, as yours, doth temperately keep time

And makes as healthful music. It is not madness That I have utter'd.

SHAKESPEARE.

-E tu, Hermann! Chegou a tua vez. Um por um evocamos ao cemitrio do passado um
cadver. Um por um erguemos-lhe o sudrio pare amostrar-lhe uma ndoa de sangue. Fala que
chegou tua vez.

-Claudius sonha algum soneto ao jeito do Petrarca, alguma aurola de pureza como a dos
espritos puros da Messiada! disse entre uma fumaa e uma gargalhada .Johann erguendo a cabea
da mesa.

-Pois bem! quereis um historia? Eu pudera conta-las, como vos, ]loucuras de noites de
orgia-mas pare que? Fora escrnio Faust ir lembrar a Mefiustteles as horas de perdio que lidou
com ele. Sabei-las sodas essas minhas nuvens do passado, lestes-lo a farta o livro desbotado de
minha existncia libertine. Se o no lembras seis, a primeira mulher das ruas pudera conta-lo. Nessa
torrente negra que se chama a vida, e que corre para o passado enquanto nos caminhamos para o
futuro, tambm desfolhei muitas crenas, e lancei despidas as minhas roupas mais perfumadas para
trajar a tnica da Saturnal! O passado e o que foi, e a flor que murchou, o sol que se apagou, o
cadver que apodreceu. Lgrimas a ele? fora loucura! Que durma, e que durma com suas
lembranas negras! revivam: acordem apenas os miostis abertos, naquele pntano! sobrege
naquele no-ser o eflvio de alguma lembrana pura!

-Bravo! Bravssimo! Claudius, estas completa mente bbedo! bof que estas romntico!

- Silencio, Bertram! certo que esta no e uma lenda para inscrever-se aps das vossas:
uma dessas coisas que se contem com os cotovelos na toalha vermelha, e os lbios borrifados de

vinho e saciados de beijos Mas que importa ?

Vos todos, que amais o jogo, que vistes um dia correr naquele abismo uma onda de oiro-
redemoinhar-lhe no fundo, como um mar de esperanas que se embate na ressaca do acaso, sabeis
melhor que vertigem nos tonteia ento: ideais melhor a loucura que nos delira naqueles jogos de
milhares de homens, onde fortuna, aspiraes, a vida mesma vo-se na rapidez de uma corrida,
onde todo esse complexo de misrias e desejos, de crimes e virtudes que se chama a existncia se
joga numa parelha de cavalos!

Apostei como homem a quem no doera empobrecer: o luxo tambm sacia, e  essa uma
saciedade terrvel! para ela nada basta: nem as danas do Oriente, nem as lupercais romanas, nem os
incndios de uma cidade inteira lhe alimentariam a seiva de morte, essa vitalidade do veneno-de
que fala Byron. Meu lance no turf foi minha fortuna inteira. Eu era rico, muito rico ento: em
Londres ningum ostentava mais dispendiosas devassides: nenhum nabado numa noite esperdiava
somas como eu. O suor de trs geraes derramava-o eu no leito das perdidas, e no cho das minhas
orgias.

No instante em que as corridas iam comear, em que todos sentiam-se febris de
impacincia-um murmrio correu pelas multides-um sorriso-e depois eram as frontes que se
expandiam-e depois uma mulher passou a cavalo.

Vsseis-la como eu-no cavalo negro, com as roupas de veludo, as faces vivas, o olhar
ardente entre o desdm dos clios, transluzindo a rainha em todo aquele edema soberbo: vsseis-la
bela na sue beleza plstica e harmnica, linda nas sues cores puras e acetinadas, nos cabelos negros,
e a tez branca da fronte; o oval das faces coradas, o fogo de ncar dos lbios finos, o esmero do colo
ressaltando nas roupas de amazona: vsseis-la assim, e a f, senhores, que no haveis rir de escrnio
como rides agora!

-Romantismo! deves estar muito brio, Claudius, para que nos teus lbios secos de
Lovelace e na tua insensibilidade  de D. Juan venha a poesia ainda passar-te um beijo!

-Ride, sim! misrrimos! que no compreendeis o que porventura vai de incndio por
aqueles lbios de Lovelace e como arqueja o amor sob as roupas gotejantes de chuvas de D. Juan-

o libertino! Insano, que nunca sonhastes Lovelace sem sue mascara talvez chorando Clarisse
Harlowe, pobre anjo, cujas asas brancas ele ia desbotar maldizendo essa fatalidade que fez do amor
uma infmia  e um crime. Mil vezes insanos que nunca sonhastes o Espanhol acordando no lupanar,
passando a mo pela fronte, e rugindo de remorso e saudade ao lembrar tantas vises alvas do
passado!

- Bravo! bravo!

- Poesia! poesia! - murmurou Bertram.

-Poesia! por que pronunciar-lhe a virgem casta o nome santo como um mistrio, no lodo
escuro da taverna? Por que lembra-la a estrela do amor a luz do lampio da crpula? Poesia! sabeis
o que e a poesia?

-Meio cento de palavras sonoras e vs que um pugilo de homens plidos entende, uma
escada de sons e harmonias que aquelas almas loucas parecem idias e lhes despertam iluses como
a lua as sombras Isto no que se chama os poetas. Agora, no ideal, na mulher, o ressaibo do ultimo
romance, o delrio e a paixo da ultima herona de novela, e o presente incerto e vago de um gozo
mstico, pelo qual a virgem morre de volpia, sem saber por que. .

- Silencio, Bertram! teu crebro queimaram-to os vinhos, como a lava de um vulco as
relvas e flores da campina. Silencio! es como essas plantas que nascem e mergulham no mar morto:
cobre-as uma cristalizao calcaria, enfezam-se e mirram. A poesia, eu t'o direi tambm por minha
vez, e o voo das aves da manha no banho morno das nuvens vermelhas da madrugada, e o cervo que
se role no orvalho da montanha relvosa, que se esquece da morte de amanha, da agonia de ontem
em seu leito de flores!

-Basta, Claudius: que isso que ai dizes ningum o entende: so palavras, palavras e
palavras, como o disse Hamlet: e tudo isso e inanido e vazio como uma caveira seca, mentiroso
como os vapores infectos da terra que o sol no crepsculo irisa de mil cores, e que se chamam as
nuvens, ou essa fade zombadora e nevoenta que se chama a poesia!

-A historia! a historia! Claudius, no vs que essa discusso nos fez bocejar de tdio?

-Pois bem, contarei o resto da historia. No fim desse dia eu tinha dobrado minha fortuna.

No dia seguinte eu a vi: era no teatro. No sei o que representaram; no sei o que ouvi,
nem o que vi; sei s que l estava uma mulher-bela como tudo quanto passe mais puro a
concepo do estaturio. Essa mulher era a duquesa Eleonora No outro dia vi-a num baile Depois
Fora longo dizer-vos: seis meses! concebes? seis meses de agonia e desejo anelante-seis meses de
amor com a sede da fera! seis meses! como foram longos!

Um dia achei que era demais. Todo esse tempo havia passado em comtemplao-em
v-la,, ama-la e sonh-la: apertei minhas mos jurando que isso no iria alm - que era muito
esperar em vo: e que se ela viria como Gulnare aos ps do Corsrio, a ele cabia ir ter com ela.

Uma noite tudo dormia no palcio do duque. A duquesa, cansada do baile, adormecia num
diva. A lmpada de alabastro  estremecia-lhe sua luz doirada na testa plida. Parecia uma fade que
dormia ao luar

O reposteiro do quarto agitou-se: um homem ai estava parado, absorto. Tinha a cabea to
quente e febril e ele a repousava no portal.

A fraqueza era covarde: e demais, esse homem comprara uma chave e uma hora a infmia
venal de um criado; esse homem jurava que nessa noite gozaria aquela mulher: fosse embora
veneno, ele beberia o mel daquela flor, o licor de escarlate daquela taa. Quanto a esses prejuzos de
honra e adultrio,, no riais deles-no que ele ria disso. Amava e queria: a sua vontade era como a
folha de um punhal-ferir ou estalar.

Na mesa havia um copo e um frasco de vinho: encheu o copo: era vinho espanhol -
Chegou-se a ela, ergueu-a com suas roupas de veludo desatadas, seus cabelos a meio soltos ainda
entremeados de pedraria e flores, seus seios meio-nus, onde os diamantes brilhavam como gotas de
orvalho-ergueu-a nos braos; deu-lhe um beijo. Ao calor daquele beijo, seminua, ela acordou:
entre os vagos sonhos se lhe perdia uma iluso talvez; murmurou-"amor!" e com olhos
entreabertos deixou cair a cabea e adormeceu de novo.

O homem tirou do seio um frasquinho de esmeralda.

Levou-o aos lbios entreabertos dela: e verteu-lhe algumas gotas que ela absorveu sem
senti-las. Deitou-a c esperou. Da a instantes o sono dela era profundssimo... A bebida era um

narctico onde se misturaram algumas ,gotas daqueles licores excitantes que acordam a febre nas
faces e o desejo volutuoso no seio.

O homem estava de joelhos: o seu peito tremia, e ele estava plido como aps de uma
longa noite sensual. Tudo parecia vacilhar-lhe em torno Ela estava nua: nem veludo, nem vu leve a
encobria:-O homem esgueu-se, afastou o cortinado.

A lmpada brilhou com mais fora-e apagou-se...

O homem era Claudius Hermann.

....................................
...

Quando me levantei, embucei-me na capa e sai pelas ruas. Queria ir ter a meu palcio,, mas estava
tonto como um brio. Titubeava e o cho era lbrico como para quem desmaia. Uma idia contudo
me perseguia. Depois daquela mulher nada houvera mais para mim. Quem uma vez bebeu o suco
das uvas purpurinas do paraso, mais nunca deve inebriar-se do nctar da terra... Quando o mel se
esgotasse, o que restava a no ser o suicdio?

Uma semana se passou assim: todas as noites eu bebia nos lbios a dormida um sculo de
gozo. Um ms!! o ms! em que delirantes iam os bailes do entrudo, em que mais cheia de febre ela
adormecia quente, com as faces em fogo!

Uma noite-era depois de um baile-eu esperei-a na alcova, escondido atrs do seu leito.
No copo cheio d'agua que estava junto a sua cabeceira derramara as ultimas gotas do filtro, quando
entrou ela com o Duque.

Era ele um belo moo!! Antes de deixa-la passou-lhe as duas mos pelas fontes e deu-lhe
um beijo. Embevecido daquele beijo, o anjo pendeu a cabea no ombro dele, e enlaou-o com seus
braos nus, reluzentes das pulseiras de pedraria. O duque teve sede, pegou no copo da duqueza,
bebeu algumas gotas; ela tomou-lhe o copo- o resto. Eu os vi assim: aquele esposo ainda to
moo, aquela mulher-ah! e to bela! de tez ainda virgem-e apertei o punhal

-Viras hoje, Maffio?, disse ela.

-Sim, minh'alma.

Um beijo sussurrou, e afogou as duas almas. E eu na sombra sorri, porque sabia que ele
no havia de vir.

....................................
....

Ele saiu, ela comeou a despir-se. Eu vi uma por uma carem as roupas brilhantes, as flores
e as jias- desatarem-se-lhe as trancas luzidias e negras-e depois aparecia no vu branco do
roupo transparente como as esttuas de ninfas meio-nuas, com as formas desenhadas pela tnica
repassada da gua do banho.

O que vi-foi o que sonhara e muito, o que vos todos, pobres insanos, idealizastes um dia
como a viso dos amores sobre o corpo da vendida! Eram os seios alvos e velados de azul, trmulos
de desejo, a cabea perdida entre a chuva de cabelos negros-os lbios arquejantes -o corpo todo
palpitante-era a languidez do desalinho, quando o corpo da beleza mais se enche de beleza, e
como uma rosa que abre molhada de sereno, mais se expande, mais patenteia suas cores.

O narctico era fortssimo: uma sofreguido febril lhe abria os beios: extenuada e
lnguida, cada no leito, com as plpebras plidas, os braos soltos e sem forca- parecia beijar uma
sombra.

....................................
....

Ergui-a do leito, carreguei-a com suas roupas difanas, suas formas cetinosas, os cabelos
soltos midos ainda de perfume, seus seios ainda quentes.

Corri com ela pelos corredores desertos, passei pelo ptio-a ultima porta estava cerrada:
abri-a.

Na rua estava um carro de viagem: os cavalos nitriam e escumavam de impacincia. Entrei
com ela dentro do carro. Partimos.

Era tempo. Uma hora depois amanhecia.

Breve estivemos fora da cidade.

A madrugada ai vinha com seus vapores, seus rosais borrifados  de orvalho, suas nuvens
aveludadas, e as guas salpicadas de ouro e vermelhido. A natureza corava ao primeiro beijo do
sol, como branca donzela ao primeiro beijo do noivo: no como amante afanada de noite volutuosa
como a pintou o paganismo; antes como virgem acordada do sono infantil, meio ajoelhada ante

Deus; que ora e murmura suas oraes balsmicas-ao cu que se azula- terra que cintila-s
guas que se douram. Essa madrugada baixava a terra como o bafo de Deus: e entre aquela luz e
aquele ar fresco a duquesa dormia -plida como os sonos daquelas criaturas msticas das
iluminuras da Idade Media-bela como a Vnus dormida do Ticiano, e volutuosa como uma das
amsias do Veroneso.

Beijei-a: eu sentia a vida que se me evaporava nos seus lbios. Ela sobressaltou-se-
entreabriu os olhos; mas o peso do sono ainda a acabrunhava, e as plpebras descoradas se
fecharam.

A carruagem corria sempre.

....................................
.

O sol estava a prumo no cu-era meio-dia: o calor abafava: pela fronte, pelas faces, pelo
colo da duquesa rolavam gotas de suor como aljfares de um colar roto... Paramos numa estalagem:
lancei-lhe sobre a face um vu, tomei-a nos meus braos, e levei-a a um aposento.

Ela devia ser muito bela assim! os criados paravam nos corredores: era assombro de tanta
beleza, mais ainda que curiosidade indiscreta.

A dona da casa chegou-se a mim.

-Senhor, vossa esposa ou irm, quem quer que ela seja, de certo precisara de uma criada
que a sirva

-Deixai-me: ela dorme.

Foi essa a minha nica resposta.

Deitei-a no leito: corri os cortinados, cerrei as janelas para que a luz lhe no turbasse o
sono. No havia  ali ningum que nos visse; estvamos ss, o homem e seu anjo, e a criatura da
terra ajoelhou-se ao p do leito da criatura do cu.

No sei quanto tempo correu assim: no sei se dormia,
mas sei que sonhava muito amor e muita esperana: no
sei se velava, mas eu a via sempre ali, eu lhe contemplava
cada movimento gracioso do dormir: eu estremecia a cada
alento que lhe tremia os seios-e tudo me parecia um
sonho-um desses sonhos a que a alma se abandona como
um cisne, que modorra, ao som das guas. . No sei quanto
tempo correu assim: sei s que o meu delquio quebrou-
se: a duquesa estava sentada sobre o leito: com os braos

nus afastava as ondas do cabelo solto que lhe cobria o
rosto e o colo.

- um sonho? murmurou. Onde estou eu? quem esse homem encostado em meu leito?

O homem no respondeu.

Ela desceu da cama: seu primeiro impulso foi o pudor: quis encobrir com as mozinhas os
seios palpitantes de susto. Sentiu-se quase nua, exposta as vistas de um estranho, e tremia como
contam os poetas que tremera Diana ao ver-se exposta, no banho, nua as vistas de Acteon.

-Senhor, dizei-me por compaixo, se tudo isso no c uma iluso se no fora uma
infmia!! Nem quero pensa-lo. Maffio no deve tardar, no e assim? o meu Maffio! Tudo isso e
uma comdia.Mas que alcova  esta? Eu adormeci no meu palcio como despertei numa sala
desconhecida? Dizei, tudo isso e um brinco de Maffio? quer se rir de mim?...Mas, vede, vede, eu
tremo, tenho medo.

O homem no respondia: tinha os olhos a fito naquela forma divina: seria a esttua da
paixo na palidez, no olhar imvel,, nos lbios sedentos, se o arfar do peito lhe no denunciasse a
vida.

Ela ajoelhou-se: nem sei o que ela dizia. no sei que palavras se evaporaram daqueles
lbios: eram perfumes, porque as rosas do cu s tem perfumes; eram harmonias, porque as harpas
do cu s tem harmonias; e o lbio da mulher bela e uma rosa divina, e seu corao e uma harpa do
cu. Eu a escutava, mas no a entendia: sentia s que aquelas falas eram muito doces, que aquela
voz tinha um talism irresistvel para minh'alma, porque s nos meus sonhos de infante que se ilude
de amores, uma voz assim me passara. Os gemidos de duas virgens abraadas no cu, doiradas da
luz da face de Deus, empalidecidas pelos beijos mais puros, pelo tremuloso dos abraos mais
palpitantes-no seriam to suaves assim!

A moa chorava, soluava: por fim ela ergueu-se.

Eu a vi correr a janela, ia abri-la tomei-a pelas mos

- Pois bem, disse ela, eu gritarei...se no for um deserto, se algum passar por
aqui...talvez me acudam...Socor...

Eu tapei-lhe a boca com as mos

-Silencio, senhora!


Ela lutava para livrar-se de minhas mos: por fim sentiu-se enfraquecida. Eu soltei-a de
pena dela.

-Ento, dizei-me onde estou-dizei-m'o, ou eu chamarei por socorro

No gritareis, senhora!

-Por compaixo ento esclarecei-me nesta duvida: por que tudo isso que eu vejo? Tudo o
que penso, o que adivinho e muito horrvel!

-Escutai pois, disse-lhe eu. Havia uma mulher. . era um anjo. Havia um homem que a
amava, como as guas amam a lua que as prateia, como as guias da montanha o sol que as fita, que
as enche de luz e de amor. Nem sei quem ele era: ergueu-se um dia de uma vida de febre,
esqueceu-a; e esqueceu o passado, diante de uns olhos transparentes de mulher, as manchas de sue
historia, numa aurora de gozos, onde se lhe desenhava a sombra desse anjo... Escutai: no o
amaldioeis! Esse homem tinha muita infmia no passado: profanara sue mocidade prostitura-a-
como a borboleta de oiro a sue gerao, lanando-a no lodo: frio, sem crenas, sem esperanas,
abafara uma por uma sues iluses, como a infanticida seus filhos. Deus o tinha amaldioado talvez!
ou ele mesmo se amaldioara. . . Esquecera que era homem, e tinha no seu peito harmonias santas
como as do poeta... Ele as esquecera, e elas dormiam-lhe no mistrio como os suspiros nas cordas
de uma guitarra abandonada. Esquecera que a natureza era bela e muito bela, que o leito das flores
da noite era recendente, que a lua era a lmpada dos amores, as aragens do vale, os perfumes do
poeta no seu noivado com os anjos, e que a aurora tinha eflvios frescos.. . e com sues nuvens
virginais, sues folhas molhadas de orvalho, sues guas nevoentas tinha encantos que s as almas
puras entendem! Tudo isso enjeitou, esqueceu. .. pare s lembrar a furto e com escrnio nas horas
suarentas da devassido... Ele era muito infame!

-Mas tudo isso no me diz quem sois vos. . . nem porque estou aqui. . .

-Escutai.-O libertino amou pois o anjo, voltou o rosto ao passado, despiu-se dele como
de um manto impuro. Retemperou-se no fogo do sentimento, apurou-se na virgindade daquela

viso-porque ela era bela como uma virgem, e refletia essa luz virgem do esprito, nesse brilho
d'alma divina que alumia as formas-que no so da terra, mas do cu. Ainda o tempo no eivara o
corao do insano de uma lepra sem cura: nem selo inextinguvel lhe gravara na fronte-impureza!
Deixou-se do viver que levara, desconheceu seus companheiros, suas amantes venais, suas insnias
cheias de febre: quis apagar todo o gosto da existncia, como o homem que perdeu uma fortuna
inteira no jogo quer esquecer a realidade.

E o homem pode esquecer tudo isto. Mas ele no era ainda feliz. As noites passava-as ao
redor do palcio dela, via-a as vezes bela e descorada ao luar, no terrao deserto, ou distinguia suas
formas na sombra que passava pelas cortinas da janela aberta de seu quarto iluminado. Nos bailes
seguia com olhares de inveja aquele corpo que palpitava nas danas. No teatro, entre o arfar das
ondas da harmonia, quando o xtase boiava naquele ambiente balsmico e luminoso, ele nada via
seno ela- e s ela! E as horas de seu leito-suas horas de sono no, que mal as dormia as vezes-
eram longas de impacincia e insnia, outras vezes eram curtas de sonhos ardentes! O pobre insano
teve um dia uma idia; era negra sim mas era a da ventura. O que fez no sei: nem o sabereis nunca.
E depois bastante brio para vos sonhar, bastante louco para nos sonhos de fogo de seu delrio
imaginar gozar-vos, foi profano assaz para roubar a um templo o cibrio d 'oiro mais puro. Esse
homem-tende compaixo dele, que ele vos amara de joelhos  anjo, Eleonora . . .

-Meu Deus! meu Deus! por que tanta infmia, tanto lodo sobre mim?  minha Madona!
por que maldissestes minha vida, por que deixastes cair na minha cabea uma ndoa to negra?

As lgrimas, os soluos abafam-lhe a voz.

-Perdoai-me, senhora, aqui me tendes a vossos ps! tende pena de mim, que eu sofri
muito, que amei-vos, que vos amo muito! compaixo! que serei vosso escravo, beijarei vossas
plantas-ajoelhar-me-ei a noite a vossa porta, ouvirei vosso ressonar, vossas oraes, vossos
sonhos-e isso me bastar-Serei vosso escravo e vosso co, deitar-me-ei a vossos ps quando
estiverdes acordada, velarei com meu punhal quando a noite cair: e se algum dia. se algum dia vs
me puderdes amar-ento! ento!.

-Oh! deixai-me! deixai-me!...


-Eleonora! Eleonora! Perder noites e noites numa esperana Alent-la no peito como uma
flor que murcha de frio-alent-la,, revive-la cada dia-para vela desfolhada sobre meu rosto!
Absorver-me em amor e s ter irriso e escrnio! Dizei antes ao pintor que rasgue sua Madona, ao
escultor que despedace a sua esttua de mulher.

Louca, pobre louca que sois! credes que um homem havia de encarnar um pensamento em
sua alma, viver desse cancro, embeber-se da vitalidade da dor, para depois rasga-lo do seio? Credes
que ele consentiria que se lhe pisasse no corao, que lhe arrancassem-a ele, poeta e amante, a
coroa de iluses-as flores uma por uma? que pela noite da desgraa, ao amor insano de uma me
lhe sufocassem sobre o seio a criatura de seu sangue, o filho de sua vida, a esperana de suas
esperanas?

-Oh! e no tereis vs tambm d de mim? no sabeis-lo? isto e infame! sou uma pobre
mulher. De joelhos eu vos peco perdo se vos ofendi.. . Eu vo-lo peco, deixai-me! que me importam
vossos sonhos, vosso amor!

Doa-me profundamente aquela dor, aquelas lgrimas me queimavam. Mas minha vontade
fez-se rija e frrea como a fatalidade.

-Que te importam meus sonhos, que te importam meus amores? Sim, tens razo! Que
importa a gua do deserto, a gazela do areal que o rabe tenha sede ou que o leo tenha fome? Mas
a sede e a fome so fatais. O amor e como eles:-entendes-me agora?

-Matai-me ento! no tereis um punhal! Uma punhalada pelo amor de Deus! Eu juro, eu
vos abenoarei

-Morrer! e pensas no morrer! Insensata!-Descer do leito morno do amor a pedra fria dos
mortos! Nem sabes o que dizes. Sabes o que e essa palavra- morrer?  a duvida que afana a
existncia: e a duvida, o pressentimento que resfria a fronte do suicida, que lhe passa nos cabelos
como um vento de inverno, e nos empalidece a cabea como Hamlet! Morrer! e a cessao de todos
os sonhos, de todas as palpitaes do peito, de todas as esperanas! E estar peito a peito com nossos
antigos amores e no senti-los! Doida! e um noivado medonho o do verme: um lenol bem negro, o
da mortalha! no faleis nisso; por que lembrar o coveiro junto ao leito da vida? Pe a mo no teu
corao-bate e bate com forca, como o feto nas entranhas de sua me. H ai dentro muita vida

ainda: muito amor por amor, muito fogo por viver! Oh! se tu quisesses amar-me!

Ela escondeu a cabea nas mos e soluou.

-E impossvel: eu no posso amar-vos!

Eu disse-lhe:

-Eleonora, ouve-me: deixo-te s; velarei contudo sobre ti daquela porta. Resolve-te: seja
uma deciso firme sim, mas pensada. Lembra-te que hoje no poders voltar ao mundo: o duque
Maffio seria o primeiro que fugiria de ti: a torpeza do adultrio senti-la-ia ele nas tuas faces: creria
roar na tua boca a umidade de um beijo de estranho. E ele te amaldioaria! V: alm a maldio e
o escrnio: a irriso das outras mulheres, a zombaria vingativa daqueles que te amaram e que no
amaste. Quando entrares, dir-se-a: ei-la! arrependeu-se! o marido -pobre dele! perdoou-a.As
mes te escondero suas filhas-as esposas honestas tero pejo de tocar-te.E aqui, Eleonora, aqui
ters meu peito e meu amor-uma vida s para ti: um homem que s pensara em ti e sonhara
sempre contigo; um homem cujo mundo sers tu, sero teus risos, teus olhares, teus amores: que se
esquecera de ontem e de amanh para fazer como um Deus de ti a sua Eternidade. Pensa, Eleonora!
se quisesses, partiriamos hoje: uma vida de venturas nos espera. Sou muito rico, bastante para
adornar-te como uma rainha. Correremos a Europa, iremos ver a Franca com seu luxo, a Espanha,
onde o clima convida ao amor, onde as tardes se embalsamam nos laranjais em flor, onde as
campinas se aveludam e se matizam de mil flores-iremos a Itlia, a tua ptria-e no teu cu azul,
nas tuas noites lmpidas, nos teus crepsculos suavssimos viver de novo ao sol meridional!.Se
quiseres.seno seria horrvel.no sei o que aconteceria: mas quem entrasse neste quarto levaria
os ps ensopados de sangue.

Sai: duas horas depois voltei.

-Pensaste, Eleonora?

Ela no respondeu. Estava deitada com o rosto entre as mos. A minha voz ergueu-se.
Havia um papel molhado de sues lgrimas sobre o leito. Estendi a mo pare tome-lo-ela
entregou-me o.

Eram uns versos meus.-Olhei pare a mesa, minha carteira de viagem, que eu trouxera do

carro, estava aberta, os papis eram revoltos Os versos eram estes.

Claudius tirou do bolso um papel amarelado e amarrotado: atirou-o na mesa. Johann leu:

No me odeies, mulher, se no passado
Ndoa sombria desbotou-me a vida:
No vicio ardente requeimando os lbios
E de tudo descri com fronte erguida.

A masc'ra de Don Juan queimou-me o rosto
Na fria palidez do libertino:
Desbotou-me esse olhar-e os lbios frios
Ousam de maldizer do meu destino.

Sim! longas noites no fervor do jogo
Esperdicei febril e macilento:
E votei o porvir ao Deus do acaso
E o amor profanei no esquecimento!

Murchei no escrnio as coroas do poeta
Na ironia da glria e dos amores:
Aos vapores do vinho, a noite insano
Debrucei-me do jogo nos fervores!

A flor da mocidade profanei-a
Entre as guas lodosas do passado
No crnio a febre, a palidez nas faces
S cria no sepulcro sossegado!

E asas lmpidas do anjo em colo impuro
Mareei-nos bafos da mulher vendida:
Inda nos lbios me roxeia o selo
Dos beijos da perdida.

E a mirra das canes nem mais vapora
Em profanada taa eivada e negra:
Mar de lodo passou-me ao rio d'alma
As nveas flores me estalou das bordas.
Sonho de glrias s me passe a furto
Qual flor aberta a medo em cho de tumbas
-Abatida e sem cheiro

O meu amor .o peito o silencia:
Guardo-o bem fundo-em sombras do sacrrio.
Onde ervaal no se abastou nos ermos.
Meu amor foi viso de roupas brancas
Da orgia a porta, fria e soluando:
Lmpada santa erguida em leito infame:
Vaso templrio da taverna a mesa:
Estrela d'alva refletindo plida
No tremedal do crime.

Como o leproso das cidades velhas
Sei me fugiras com horror aos beijos
Sei, no doido viver dos loucos anos

As crenas desflorei em negra insnia:
-Vestal, prostitui as formas virgens
-Lancei eu prprio ao mar da c'roa as folhas,
-Troquei a rsea tnica da infncia
Pelo manto das orgias.

Oh! no me ames sequer! Pois bem!! um dia
Talvez diga o Senhor ao podre Lzaro:
Ergue-te-ai do lupanar da morte,
Revive ao fresco do viver mais puro!
E viverei de novo: a mariposa
Sacode as asas, estremece-as, brilha.
Despindo a negra tez, a bava imunda
Da larva desbotada.

Ento, mulher-acordarei: do lodo,
Onde Satan se pernoitou comigo,
Onde inda morno perfumou seu molde
Cetinosa nudez de formas nveas.
E a loira meretriz nos seios brancos
Deitou-me a fronte lvida, na insnia
Quedou-me a febre da volpia a sede
Sobre os beijos vendidos.

E ento acordarei ao sol mais puro,
Cheirosa a fronte as auras da esperana!
Lavarei-me da f nas guas d'oiro
De Madalena em lgrimas-e ao anjo
Talvez que Deus me de, curvado e mudo.
Nos eflvios do amor libar um beijo,
Morrer nos lbios dele!

Ela calou-se: chorava e gemia. Acerquei-me dela: ajoelhei-me como ante Deus. -
Eleonora-sim ou no?

Ela voltou o rosto para o outro lado, quis falar- interrompia-se a cada slaba.

-Esperai, deixai que ore um pouco: a Madona talvez me perdoe.

Esperava eu sempre.-Ela ajoelhou-se.

-Agora. . disse ela erguendo-se e estendendo-me a sua mo.

-Ento?

-Irei contigo.

E desmaiou.

....................................
........................................
....

Aqui parou a historia de Claudius Hermann.

Ele abaixou a cabea na mesa, no falou mais.

-Dormes, Claudius? Por Deus! ou esta bbedo ou

Era Archibald que o interpelava: sacudia-o a toda a forca.

Claudius levantou um pouco a cabea estava macilento: tinha os olhos fundos numa
sombra negra.

-Deixai-me, amaldioados! deixai-me pelo cu ou pelo inferno! no vedes que tenho
sono-sono e muito sono ?

-E a histria a historia? bradou Solfieri.

-E a duquesa Eleonora? perguntou Archibald.

-E verdade a historia. Parece-me que olvidei tudo isso. Parece que foi um sonho!

-E a Duquesa?

-A Duquesa? Parece-me que ouvi esse nome alguma vez Com os diabos, que me
importa?

Ai quis prosseguir: mas uma forca invencvel o prendia.

 -A Duquesa. verdade! Mas como esqueci tudo isso que no me lembro!.Tirai-me da
cabea esse peso. Bof que encheram-me o crnio de chumbo d derretido!.e ele batia na cabea
macilenta como um medico no peito do agonizante para encontrar um eco de vida

-Ento?

-Ah! ah! ah! gargalhou algum que tinha ficado estranho a conversa.

- Arnold ! cala-te!

- Cala-te antes, Solfieri! eu contarei o fim da histria.

Era Arnold-o loiro que acordava.

-Escutai vos todos-disse.-Um dia Claudius entrou em casa. Encontrou o leito
ensopado de sangue: e num recanto escuro da alcova um doido abraado com um cadver. O
cadver era o de Eleonora: o doido nem o pudreis conhecer tanto a agonia o desfigurara. Era uma
cabea hirta e desgrenhada, uma tez esverdeada, uns olhos fundos e baos onde o lume da insnia

cintilava a furto como a emanao luminosa dos pauis entre as trevas.

Mas ele o conheceu era o Duque Maffio.

Claudius soltou uma gargalhada. - Era sombria como a insnia-fria como a espada do
anjo das trevas. Caiu ao cho: lvido e suarento como a agonia: inteiricado como a morte.

Estava brio como o defunto patriarca No, o primeiro amante da vinha, virgem
desconhecida, ate ento, e hoje prostituta de todas as bocas.brio como No, o primeiro borracho
de que reza a historia! Dormia pesado e fundo como o apstolo S. Pedro no Horto das Oliveiras.O
caso  que ambos tinham ceado a noite.

Arnold estendeu a capa no cho e deitou-se sobre ela.

Da a alguns instances as seus roncos de bartono se mesclavam ao magno concerto dos
roncos dos dormidos.

VI

JOHANN

Pour quoi? c'est que mon coeur au milieu des dlices

D'un souvenir jaloux constamment oppress'

Froid au bonheur prsent va chercher ses supplices Dans l'avenir et le passe'.

ALEX. DUMAS.

-Agora a minha vez! Quero lanar tambm uma moeda em vossa urma: e o cobre azinhavrado
do mendigo: pobre esmola por certo!

Era em Paris, num bilhar. No sei se o fogo do jogo me arrebatar a, ou se o kirsch e o curaau
me queimaram demais as idias Jogava contra mim um moo: chamava-se Artur.

Era uma figure loira e mimosa como a de uma donzela. Rosa infantil lhe avermelhava as faces,
mas era uma rosa de cor desfeita. Leve buo lhe sombreava o lbio,, e pelo oval do rosto uma
penugem doirada lhe assomava como a felpa que rebua o pssego.

Faltava um ponto a meu adversrio pare ganhar. A mim, faltavam-me no sei quantos: sei so
que eram muitos e pois requeria-se um grande sangue frio, e muito esmero no jogar.

Soltei a bola. Nessa ocasio o bilhar estremeceu.

O moo loiro, voluntariamente ou no, se encostara ao bilhar.A bola desviou-se, mudou de
rumo: com o desvio dela perdi A raiva levou-me de vencida. Adiantei-me para ele. A meu olhar
ardente o mancebo sacudiu os cabelos loiros e sorriu como de escrnio.

Era demais! Caminhei para ele: ressoou uma bofetada. O moo convulso caminhou para mim
com um punhal, mas nossos amigos nos sustiveram.

-Isso e briga de marujo. O duelo, eis a luta dos homens de brio.

O moo rasgou nos dentes uma luva, e atirou-m'a a cara. Era insulto por insulto; lodo por lodo:
tinha de ser sangue por sangue.

Meia hora depois tomei-lhe a mo com sangue frio e disse-lhe no ouvido:

-Vossas armas, senhor?

-Sabe-lo-eis no lugar.

-Vossas testemunhas?

-A noite e minhas armas.

 -A hora?

-J

-O lugar?

-Vireis comigo.Onde pararmos ai ser o lugar.

-Bem, muito bem: estou pronto, vamos.

Dei-lhe o brao e samos. Ao ver-nos to frios a conversar creram uma satisfao. Um dos
assistentes contudo entendeu-nos.

Chegou a ns e disse:

-Senhores, no h pois meio de conciliar-vos?

Ns sorrimos ambos.

-E uma crianada, tornou ele.

Ns no respondemos.

-Se precisardes de uma testemunha, estou pronto.

Ns nos curvamos ambos.

Ele entendeu-nos: viu que a vontade era firme: afastou-se.

Ns samos.

.....................................

Um hotel estava aberto. O moo levou-me para dentro.

- Moro aqui, entrai, disse-me.

Entramos.

-Senhor, disse ele, no h meio de paz entre nos: um bofeto e uma luva atirada as faces de um
homem saco ndoas que s o sangue lava. E pois um duelo de morte.

-De morte, repeti como um eco.

-Pois bem: tenho no mundo s duas pessoas- minha me e Esperei um pouco.

O moo pediu papel, pena e tinta. Escreveu: as linhas eram poucas. Acabando a carta deu-m'a a
ler.

-Vede-no e uma traio, disse.

-Artur, creio em vos: no quero ler esse papel.

Repeli o papel. Artur fechou a carta, selou o lacre com um anel que trazia no dedo. Ao ver o
anel uma lgrima correu-lhe na face e caiu sobre a carta.

-Senhor, sois um homem de honra? Se eu morrer, tomai esse anel: no meu bolso achareis uma
carta: entregareis tudo a .Depois dir-vos-ei a quem.

-Estais pronto? perguntei.

-Ainda no! antes de um de nos morrer e justo que brinde o moribundo ao ultimo crepsculos
da vida.

No sejamos Abissnios: demais o sol no cinbrio do poente ainda e belo.

O vinho do Reno correu em guas d'oiro nas taas de cristal verde. O moo ergueu-se.

-Senhor, permita que eu faa uma sade convosco.

-A quem?


-E um mistrio- uma mulher, e o nome daquela que se apertou uma vez nos lbios, a quem
se ama, e um segredo. no a fareis?

-Seja como quiserdes, disse eu.

Batemos os copos. O moo chegou a janela. Derramou algumas gotas de vinho do Reno a noite.
Bebemos.

-Um de ns fez a sue ultima sade, disse ele. Boa noite pare um de nos bom leito, e sono
sossegado pare c filho da terra!

Foi a uma secretria, abriu-a: tirou duas pistolas.

-Isto e mais breve, disse ele. Pela espada e mais longa a agonia. Uma delas esta carregada, a
outra no. Tir-las-emos a sorte. Atiraremos a queima-roupa.

- E um assassinato

-No dissemos que era um duelo de morte, que um de nos devia morrer?

-Tendes razo. Mas dizei-me: onde iremos?

-Vinde comigo. Na primeira esquina deserta dos arrabaldes. Qualquer canto de rua e bastante
sombrio para dois homens dos quais um tem de matar o outro.

A meia-noite estvamos fora da cidade: Ele ps as duas pistolas no cho.

-Escolhei, mas sem toc-las.

Escolhi.

-Agora vamos, disse eu.

-Esperai, tenho um pressentimento frio: e uma voz suspirosa me geme no peito. Quero rezar e
uma saudade por minha me.

Ajoelhou-se. A vista daquele moo de joelhos-talvez sobre um tmulo-lembrei-me que eu
tambm tinha me e uma irm e que eu as esquecia. Quanto a amantes, meus amores eram como a
sede dos ces das ruas, saciavam-se na gua ou na lama Eu s amara mulheres perdidas.

- tempo, disse ele.

Caminhamos frente a frente. As pistolas se encostaram nos peitos-as espoletas estalaram: um
tiro s estrondou, ele caiu quase morto

-Tomai, murmurou o moribundo, e acenava-me para o bolso.

Atirei-me a ele. Estava afogado em sangue. Estrebuchou trs vezes e ficou frio. Tirei-lhe o anel
da mo. -Meti-lhe a mo no bolso como ele dissera. Achei dois bilhetes.

A noite era escura: no pude l-los.

Voltei a cidade. A luz baa do primeiro lampio vi os dois bilhetes. O primeiro era a carta para
sua me. O outro estava aberto: li.

"A uma hora da noite na rua de.....
"n.? 60, 1.? andar: acharas a porta aberta.

Tua G."

No tinha outra assinatura.

Eu no soube o que pensar. Tive uma idia: era uma infmia.

Fui a entrevista. Era no escuro. Tinha no dedo o anel que trouxera do morto.Senti uma
mozinha acetinada tomar-me pela mo, subi. A porta fechou-se.

Foi uma noite deliciosa! A amante do loiro-era virgem! Pobre Romeu! Pobre Julieta! Parece
que essas duas crianas levavam a noite em beijos infantis e em sonhos puros!

(Johann encheu o copo: bebeu-o, mas estremeceu)

Quando eu ia sair, topei um vulto a porta.

-Boa noite, cavalheiro, eu vos esperava h muito. Essa voz pareceu-me conhecida. Porem eu
tinha a cabea desvairada

No respondi: o caso era singular. Continuei a descer: o vulto acompanhou-me. Quando
chegamos a porta vi luzir a folha de uma faca. Fiz um movimento e a lamina resvalou-me no ombro.
A luta fez-se terrvel na escurido. Eram dous homens que se no conheciam; que no pensavam
talvez terem-se visto um dia a luz, e que no haviam mais ver-se porventura ambos vivos.

O punhal escapou-lhe das mos, perdeu-se no escuro: subjuguei-o. Era um quadro infernal, um
homem na escurido abafando a boca do outro com a mo, sufocando-lhe a garganta com o joelho, e
a outra mo a tatear na sombra procurando um ferro.

Nessa ocasio senti uma dor horrvel: frio e dor me correram pela mo. O homem morrera

sufocado, e na agonia me enterrara os dentes pela carne. Foi a custo que desprendi a mo sanguenta e
descarnada da boca do cadver. Ergui-me.

Ao sair tropecei num objeto sonoro. Abaixei-me para ver o que era. Era uma lanterna furta-fogo.
Quis ver quem era o homem. Ergui a lmpada.

O ultimo claro dela banhou a cabea do defunto.e apagou-se.

Eu no podia crer: era um sonho fantstico toda aquela noite. Arrastei o cadver pelos ombros
levei-o pela laje da calcada ate ao lampio da rua, levantei-lhe os cabelos ensanguentados do rosto.
(Um espasmo de medo contraiu horrivelmente a face do narrador-tomou o copo, foi beber: os
dentes lhe batiam como de frio: o copo estalou-lhe nos lbios).

Aquele homem-sabei-lo! era do sangue do meu sangue-era filho das entranhas de minha me
como eu-era meu irmo: uma idia passou ante meus olhos como um antema. Subi ansioso ao
sobrado. Entrei. A moca desmaiara de susto ouvindo a luta. Tinha a face fria como o mrmore. Os
seios nus e virgens estavam parados e glidos como os de uma esttua A forma de neve eu a sentia
meio nua entre os vestidos desfeitos, onde a infmia asselara a ndoa de uma flor perdida.

Abri a janela-levei-a ate a.

Na verdade que sou um maldito! Ol, Archibald, dai-me um outro copo, enchei-o de Cognac
enchei-o at a borda! Vede: sinto frio, muito frio: tremo de calafrios c o suor me corre nas faces!
Quero o fogo dos espritos! a ardncia do crebro ao vapor que tonteia.quero esquecer!

- Que tens, Johann? tiritas como um velho centenrio!

O que tenho? o que tenho? no o vedes, pois?

Era linha irm!

VII

LTIMO BEIJO DE AMOR

Well Juliet! I shall lie with thee to night!

SHAKESPEARE .

Romeu e Julieta


A noite ia alta: a orgia findara. Os convivas dormiam repletos, nas trevas.

Uma luz raiou sbito pelas fisgas da porta. A porta abriu-se. Entrou uma mulher vestida de
negro. Era plida, e a luz de uma lanterna, que trazia erguida na mo, se derramava macilenta nas
faces dela e dava lhe um brilho singular aos olhos. Talvez que um dia fosse uma beleza tpica, uma
dessas imagens que fazem descorar de volpia nos sonhos de mancebo. Mas agora com sue tez lvida,
seus olhos acesos, seus lbios roxos, sues mos de mrmore, e a roupagem escura e gotejante da
chuva, dissereis antes-o anjo perdido da loucura.

A mulher curvou-se: com a lanterna na mo procurava uma por uma entre essas faces dormidas
um rosto conhecido.

Quando a luz bateu em Arnold, ajoelhou-se. Quis dar-lhe um beijo-alongou os lbios... Mas
uma idia a susteve. Ergueu-se. Quando chegou a Johann, que dormia, um riso embranqueceu-lhe os
beios: o olhar tornou-se-lhe sombrio.

Abaixou-se junto dele: deps a lmpada no cho. O lume bao da lanterna dando nas roupas dela
espalhava sombra sobre Johann. A fronte da mulher pendeu-e sua mo passou na garganta dele.-
Um soluo rouco e sufocado ofegou da. A desconhecida levantou-se. Tremia, e ao segurar na
lanterna ressoou-lhe na mo um ferro...Era um punhal...Atirou-o no cho. Viu que tinha as mos
vermelhas-enxugou-as nos longos cabelos de Johann...

Voltou a Arnold; sacudiu-o.

-Acorda e levanta-te!

-Que me queres?

-Olha-me: no me conheces?

-Tu! e no e um sonho? Es tu! oh! deixa que eu te aperte ainda! Cinco anos sem ver-te! Cinco
anos! E como mudaste!

-Sim: j no sou bela como h cinco anos!  verdade, meu loiro amante! E que a flor de beleza
e como todas as flores. Alentai-as ao orvalho da virgindade, ao vento da pureza-e sero belas.-
Revolvei-as no lodo -e como os frutos que caem, mergulham nas guas do mar, cobrem-se de um
invlucro impuro e salobro! Outrora era Giorgia, a virgem: mas hoje e Giorgia, a prostituta!

-Meu Deus! meu Deus!

 E o moo sumiu a fronte nas mos.

-No me amaldioes, no!


-Oh! deixa que me lembre; estes cinco anos que passaram foram um sonho. Aquele homem do
bilhar, o duelo a queima-roupa, meu acordar num hospital, essa vida devassa onde me lanou a
desesperao, isto e um sonho? Oh! lembremo-nos do passado! Quando o inverno escurece o cu,
cerremos os olhos; pobres andorinhas moribundas, lembremo-nos da primavera!...

-Tuas palavras me doem... E um adeus, e um beijo de adeus e separao que venho pedir-te;
na terra nosso leito seria impuro, o mundo manchou nossos corpos. O amor do libertino e da
prostituta! Satan riria de nos. E no cu, quando o tmulo nos lavar em seu banho, que se levantara
nossa manha de amor. . .

-Oh! ver-te e para deixar-te ainda uma vez! E no pensaste, Giorgia, que me fora melhor ter
morrido devorado pelos ces na rua deserta, onde me levantaram cheio de sangue? Que fora-te
melhor assassinar-me no dormir do brio, do que apontar-me a estrela errante da ventura e apagar-me
a do cu? no pensaste que, aps cinco anos, cinco anos de febre e de insnias, de esperar e
desesperar, de vida por ti, de saudades e agonia, fora o inferno ver-te para deixar-te?

-Compaixo, Arnold! preciso que esse adeus seja longo como a vida. Vs, minha sina e negra:
nas minhas lembranas h uma ndoa torpe. . Hoje! e o leito venal...Amanh!... s espero no leito do
tmulo! Arnold! Arnold!

-No me chames Arnold! chama-me Artur como dantes. Artur! no ouves? Chama-me assim!
H tanto tempo que no ouo me chamarem por esse nome! .. Eu era um louco! quis afogar meus
pensamentos, e vaguei pelas cidades e pelas montanhas deixando em toda a parte lgrimas-nas
cavernas solitrias, nos campos silenciosos, e nas mesas molhadas de vinho! Vem, Giorgia! senta-te
aqui, senta-te nos meus joelhos-bem conchegada a meu corao. . . tua cabea no meu ombro!
Vem! um beijo! quero sentir ainda uma vez o perfume que respirava outrora nos teus lbios.-
Respire-o eu e morra depois!. . . Cinco anos! oh! tanto tempo a esperar-te, a desejar uma hora no teu
seio!... Depois... escuta...tenho tanto a dizer-te! tantas lgrimas a derramar no teu colo! Vem! e

dir-te-ei toda a minha historia! minhas iluses de amante e as noites malditas da crpula, e o tdio que
me inspiravam aqueles beios frios das vendidas que me beijavam! Vem! contar-te-ei tudo isso:
dir-te-ei como profanei minh'alma, e meu passado: e choraremos juntos-e nossas lgrimas nos
lavaro como a chuva lava as folhas do lodo!

-Obrigado, Artur! obrigado!

A mulher sufocava-se nas lagrimas, e o mancebo murmurava entre beijos palavras de amor.

-Escuta, Artur, eu vinha s dizer-te-adeus!- da borda do meu tmulo: e depois contente
fecharia eu mesma a porta dele. . Artur, eu vou morrer!

Ambos choravam.

-Agora v, continuou ela. Acompanha-me: vs aquele homem?

Arnold tomou a lanterna.

-Johann! morto! sangue de Deus! quem o matou?

-Giorgia. Era ele um infame. Foi ele quem deixou por morto um mancebo a quem esbofeteara
numa casa de jogo. Giorgia a prostituta vingou nele Giorgia, a virgem. Esse homem foi quem a
desonrou! desonrou-a, a ela que era sua irm!!

-Horror! horror!

E o moo virou a cara e cobriu-a com as mos.

A mulher ajoelhou-se a seus ps

-E agora adeus! adeus que morro! no vs que fico lvida, que meus olhos se empanam e
tremo... e desfaleo?

-No! eu no partirei. Se eu vivesse amanha haveria uma lembrana horrvel em meu passado...

-E no tens medo? Olha! e a morte que vem! e a vida que crepscula em minha fronte. no vs
esse arrepio entre minhas sobrancelhas?. . .

-E que me importa o sonho da morte? Meu porvir amanha seria terrvel: e a cabea apodrecida
do cadver no ressoam lembranas; seus lbios gruda-os a morte: a campa e silenciosa. Morrerei!

A mulher recuava. . . recuava. O moo tomou-a nos braos, pregou os lbios nos dela. . Ela deu
um grito, c caiu-lhe das mos Era horrvel de ver-se. O moo tomou o punhal, fechou os olhos,

apertou-o no peito, e caiu sobre ela. Dois gemidos sufocaram-se no estrondo do baque de um corpo...

A lmpada apagou-se.



66



